Identidade de mulher morta por açougueiro vira mistério e desafia a Polícia Civil de Rio Preto
Mais de dez dias após a Polícia Civil encontrar o corpo da mulher esquartejada e colocada em sacos de lixo no bairro Estoril, em Rio Preto, a identidade da vítima ainda é um mistério, mesmo após a prisão do autor

Sem nome, sem digitais, sem rosto identificável, a mulher esquartejada encontrada na semana passada em Rio Preto transformou-se no maior enigma da investigação conduzida pela Delegacia de Homicídios. Antes mesmo de apontar as circunstâncias do assassinato, a Polícia Civil trava uma corrida contra o tempo para devolver uma identidade à vítima.
Das partes do corpo recuperadas até agora, nenhuma permitiu sua identificação, e a ausência das mãos, descartadas em local ainda desconhecido pelo açougueiro Marciel Dias dos Santos, de 29 anos, impede a comparação das impressões digitais com o banco de dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado.
O crime começou a ser investigado no dia 27 de julho deste ano, após parte do corpo de uma mulher ser encontrada em duas lixeiras, ao lado de um estabelecimento comercial de fornecimento de alimentação, no Estoril, em Rio Preto. De acordo com estimativas da Polícia Civil, a vítima foi morta entre os dias 22 e 23 de julho deste ano, mas a data mais aproximada só vai ser possível após o laudo pericial feito nas partes encontradas do corpo da vítima.
Marciel foi preso na noite de 31 de julho, com base em imagens de câmeras de monitoramento de imóveis próximos à lixeira. Ele residia em uma casa de fundos, na rua Pedro Álvares Cabral, a cerca de 800 metros de distância das lixeiras onde o corpo foi descartado.
Durante os últimos dias do caso, a Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Rio Preto tem tentado a identificação da mulher por meio de exames de DNA, feitos em comparação com familiares de pessoas desaparecidas que se submeteram a testes na sede da Delegacia de Homicídios, mas sem nenhuma correspondência. Há também a possibilidade de identificação pela arcada dentária, mas o exame é de confirmação, com a ficha odontológica dela; sem o nome, não é possível.
CÂMERAS
Para identificar a mulher, os investigadores da Deic tentam, nos últimos dias, buscar imagens de câmeras de monitoramento nas imediações da residência de Marciel para verificar se alguma filmou a chegada dos dois ao imóvel, na rua Pedro Álvares Cabral. Uma vizinha já forneceu os arquivos de uma câmera que pega a entrada da casa dele, mas as imagens ainda estão sob análise policial.
Marciel afirmou para os policiais da Delegacia de Homicídios que a conheceu na Praça Lisboa, que fica a 100 metros de distância de sua residência, na rua Pedro Álvares Cabral, ainda no bairro Jardim Estoril.
"Nós fizemos o caminho do descarte. Focamos na análise das imagens para identificação, o mais rápido possível, do suspeito, mas ainda há um grande volume de arquivos a serem analisados", disse o delegado André Amorim, da Delegacia de Homicídios da Deic.
Nesta segunda-feira, 3, mais uma perna foi localizada com o auxílio do suspeito em um bueiro do mesmo bairro. A Deic havia comunicado à imprensa se tratar das mãos da vítima e, posteriormente, corrigiu a informação. A faca utilizada para o esquartejamento foi também apreendida na segunda-feira.
DESCONHECIA
De acordo com o delegado André Amorim, Marciel informou mais características físicas da vítima, mas alega que não a conhecia previamente.
Na versão do suspeito, os dois teriam consumido drogas no começo do encontro e se desentendido na residência onde ele morava há menos de um mês. Ele se mudou para o imóvel no dia 17 de julho, segundo a proprietária. Ele alegou para os investigadores que o desentendimento ocorreu após ela ameaçar denunciá-lo por estupro, o que seria mentira, segundo ele, porque tudo teria acontecido de forma consensual.
O suspeito alega que esquartejou a mulher após ela bater sozinha a cabeça na parede durante uma briga. No entanto, segundo a Polícia Civil, a vítima tinha sinais de perfuração no tórax. A versão dele sobre a morte vai ser comparada com o laudo pericial feito nas partes do corpo encontradas, inclusive na cabeça da vítima, para ver se há sinais físicos de que ela teria batido a cabeça.
VAI E VEM
Em entrevista coletiva nesta terça-feira, 4, o delegado Amorim afirmou que ainda não tinha detalhes sobre a vida pregressa do suspeito no estado da Bahia, onde ele nasceu.
Marciel é classificado por vizinhos e colegas de trabalho como um homem quieto e de fala mansa. No entanto, a ex-esposa o denunciou na Delegacia de Defesa da Mulher de Rio Preto por violência doméstica, e ela o descreveu como um homem de temperamento violento.
O que se sabe
Características da vítima
Mulher de 30 a 35 anos
Com 1,65m de altura
Pele branca
Cabelos preto, de crespo a cacheado
Dentes em bom estado
Unhas do pé com esmalte vermelho
Partes do corpo encontradas
Cabeça (com o rosto desfigurado)
Tórax (com sinais de perfurações por objeto cortante)
Um dos braços (sem a mão)
Perna esquerda com o pé
Pé direito e outros segmentos dos membros inferiores
Identidade
Polícia conta com análise de DNA e arcada dentária para tentar identificar a vítima
Outra estratégia é a análise de imagens de câmeras de segurança da região do crime
Três famílias com mulheres desaparecidas procuraram a polícia, mas exames de DNA descartaram parentesco
O autor
Marciel dos Santos, 29 anos, é natural do estado da Bahia
O investigado responde a um processo criminal no Tribunal de Justiça da Bahia, na comarca de Pindobaçu, por tentativa de homicídio
No ano passado, já em Rio Preto, ele virou réu na Justiça por violência doméstica contra a ex-mulher
Ele é açougueiro e trabalhava em uma rotisseria de Rio Preto
O crime
A mulher teria sido morta entre a noite de terça e a madrugada de quarta, dias 21 e 22 de julho, em uma casa de fundos, no Parque Estoril
Câmeras de segurança mostram o autor levando mochilas e sacos para lixeiras na noite de sábado, 25
As partes do corpo foram encontradas em duas lixeiras próximas a um restaurante no Estoril na segunda-feira, 27
Na noite de sexta-feira, 31, o autor foi preso
Versão do autor
Marciel alega que conheceu a mulher em uma praça do Estoril há pouco tempo
Afirma que, durante uma discussão na casa dele, a mulher teria batido a cabeça após uma troca de agressões e morrido
Para não ser acusado, tentou ocultar o corpo por meio do esquartejamento
Fonte: Polícias Civil e Militar