SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 23 DE OUTUBRO DE 2021
Saúde

Você sabe diferenciar a enxaqueca e uma dor de cabeça momentânea?

Da Redação
Publicado em 13/08/2021 às 14:55Atualizado em 13/08/2021 às 14:55

Dor de cabeça ou enxaqueca? Independente do diagnóstico, uma coisa é fato: não espere a dor piorar para tomar o remédio. Essa é o alerta do médico neurologista e neuro-oncologista Gabriel Novaes de Rezende Batistella, membro da Society for Neuro-Oncology Latin America (SNOLA). O médico explica em 5 pontos que ajudam a diferenciar e tratar as dores de cabeça e enxaqueca:

 1 - O que diferencia a enxaqueca de uma dor de cabeça momentânea?

De fato, a chance de estarmos lidando com uma dor de cabeça momentânea é, aparentemente, maior do que estarmos lidando com uma dor de cabeça crônica ou uma dor de cabeça relacionada a uma doença grave ainda não descoberta. Dores de cabeça são, na maioria das vezes, por duas causas comuns e passageiras: tensional (dores geralmente mais leves que uma crise de enxaqueca, sendo notada nos dois lados da cabeça e sem uma sensação de náusea, irritabilidade com a luz e cheiros fortes) e enxaqueca (geralmente começa e fica de um lado da cabeça, atrapalha muito a rotina da pessoa, pode gerar muita náusea, irritabilidade com a luz, sons e cheiros, e pode gerar até mesmo dias perdidos no trabalho ou redução da produtividade de forma geral). Para termos uma ideia de quando precisamos de um acompanhamento neurológico para dor de cabeça, com certeza devemos considerar se a dor está impactando o paciente na sua rotina social, trabalho, reuniões de família, e principalmente quando não se sabe ainda o motivo da dor de cabeça e como tratar. A rigor, gostaríamos de que todos que possuem dor de cabeça procurassem um neurologista ou clínico geral ao menos uma vez, para orientação, mas muitas vezes isto não é possível, e culturalmente não temos este hábito. Acredito ser importante orientar que, na maior parte das vezes, a consulta irá ensinar a usar o que temos disponível na farmácia, de forma racional e controlada, evitando idas desnecessárias a um pronto-socorro, e evitando até mesmo muitas consultas médicas, mantendo o paciente na sua rotina confortável. Dores mais crônicas podem demandar mais no início, mas assim que controlarmos o paciente, vamos ‘dando um espaço’ para ele respirar das consultas e retornar a sua vida habitual.

 2 - Quais as origens mais comuns da cefaleia?

A origem exata da dor de cabeça ainda está para ser melhor esclarecida na Medicina, mas podemos, com alguma certeza, apontar que neurônios sensitivos em alguns locais do cérebro estão mais ‘abertos’ aos estímulos, ficando muito ativos e gerando um processo neuroinflamatório que culmina na dor de cabeça. Não acredito que isto por si só vai explicar todos os tipos de dores de cabeça que podemos ter, mas esta hipótese nos ajuda a guiar o tratamento do paciente da melhor forma. Fica um pouco mais fácil entender o motivo do estresse gerar dor, assim como muita luz, barulhos intensos, cheiros muito fortes e outros. Com o passar do tempo o mecanismo de cada dor vem ficando mais claro, e podemos ter fé que novas formas mais efetivas de tratar irão surgir.

 3 - No caso de uma dor de cabeça momentânea, como tratar o sintoma?

A dica é lembrar qual remédio geralmente funciona na rotina do paciente, podemos ter diversas opções. Gosto de ensinar aos meus pacientes que temos sempre que tratar na primeira hora de dor, mesmo que ele fique em dúvida se a dor irá crescer a ponto de precisar do remédio. Tratar na primeira hora aumenta a chance de eliminar, de vez, aquela crise, e reduz as chances de cronificação, então compensa! Outra dica, que considero muito importante, é tentar usar medicamentos que costumo chamar de ‘puros’, isto é, não combinados com diversos outros remédios, pois isto aumenta a chance de vício e redução ao longo do tempo da eficácia do remédio. Prefira sempre um remédio, um mecanismo de ação, como dipirona, paracetamol, ibuprofeno, e não os combinados com relaxantes musculares, cafeína etc. Tente sempre utilizar a dose correta sugerida, no Brasil temos o costume de utilizar doses menores, com medo do remédio, e isto não é correto.

 4 - E no caso de um quadro crônico de enxaqueca, como tratar a doença?

Aqui temos um cenário difícil, mesmo, mas que vai exigir do médico e do paciente que ambos façam uma amizade no consultório, e se conheçam muito bem. Temos diversas opções, desde medicamentos orais até mesmo procedimentos utilizando toxina botulínica e medicamentos monoclonais, com bons resultados. A dor crônica pode ser muito incapacitante para o paciente, mesmo que ele não entenda isso, passando a ter uma noção do quanto atrapalhava somente quando sai do período de cronicidade. O tratamento deve ser algo contínuo, aqui o paciente deve entender que vai utilizar, por alguns meses ou até mais, um medicamento diário, devendo ser reavaliado periodicamente buscando resultados. O medicamento de uso diário não serve para tirar a dor naquele dia, mas sim para retirar o mecanismo que faz com que a dor venha todo dia, então o paciente deve entender que também irá aprender a usar remédios para dor do dia, somado ao tratamento diário para dor crônica. Sugiro também, neste contexto, que o paciente anote bem quantos comprimidos por semana ele toma de remédio, pois na grande maioria dos casos encontramos abuso de substâncias, e o desmame pode ajudar muito o paciente a sair do período de cronicidade, além de ser uma ótima economia de dinheiro para o paciente. O tratamento da dor crônica é muito mais efetiva hoje do que antigamente.

 5 - Pode listar algumas dicas gerais para evitar a dor de cabeça?

Primeiramente já aviso que, na Neurologia de forma geral, tratamento algum estará completo sem que o paciente mude seu estilo de vida. Não menospreze uma boa alimentação, uma rotina de exercícios físicos, meditação ou tratamentos psicológicos. Não vamos fazer milagres com comprimidos, não devemos ter este pensamento de que ir ao neurologista resolverá tudo sem esforço por parte do paciente, infelizmente ainda não podemos terceirizar totalmente nosso tratamento para a equipe médica. Quando em tratamento, busque lembrar quais os medicamentos costumam ser efetivos, e tente entender se a dor é a mesma da passada. Dores que vêm piorando em intensidade, ficando mais frequentes na semana ou no mês, e mais resistentes aos medicamentos deveriam levar o paciente a buscar um neurologista. Dores que não passam com os medicamentos habituais, e estão atrapalhando muito a rotina do paciente, deveria ser conduzida com medicamentos venosos, num pronto-socorro, por exemplo, e de preferência num pronto-socorro com suporte neurológico. Quando com dor, evite computadores, evite televisão ou qualquer fonte luminosa direta artificial, isto inclui seu celular. Prefira não se exercitar neste dia, e nem fazer alimentações pesadas (evitar gordura, refrigerante, frituras, chocolates, sucos com açúcar e outros), e oriente seus familiares a reduzirem barulhos. Não se esqueça, tome o remédio já na primeira hora de dor, vamos aprender que não é correto deixar a dor piorar para tratar!

 
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