SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 05 DE DEZEMBRO DE 2021
ARTIGO

A essência da poesia

Vera Márcia Parábolli Milanesi
Publicado em 26/09/2021 às 00:10Atualizado em 29/10/2021 às 11:03

Em tempos de caos pandêmico, assisto, com esperança, à presença, cada dia mais marcante, da poesia nas redes sociais. Parece-me que as novas gerações estão acordando para a beleza e/ou estranhamento causados pela boa poesia. E melhor: gostam do que veem. Tanto gostam que replicam, recriam, curtem com coraçõezinhos mil. E assim, a poesia vai traçando o mapa de sua invasão da rede, deixando traços de um maior envolvimento do leitor com as palavras e, em muitos casos, promovendo a criação poética.

Definir poesia sempre se mostrou um trabalho árduo, se não impossível, pois intuitivamente, é simples observar “um quê a mais” vibrando nos textos poéticos, mas quando somos indagados a seu respeito, todas as explanações teóricas parecem insuficientes. Paulo Leminsky apresenta, em um de seus poemas, definições, de diferentes escritores: “a fala do infalável” (Goethe); “permanente hesitação entre som e sentido” (Paul Valéry); “música que se faz com ideias” (Fernando Pessoa). E, no seu último verso, Leminsky afirma que poesia é “a liberdade na minha linguagem”. Forma, liberdade, emoção, sentido, fala... Não é à toa que o título deste poema seja “Limites ao léu”: a realização poética extrapola quaisquer tentativas de regras e formatações, mas carrega em si um “estranhamento” reconhecível por quem lê. A poesia nos desinstala nos tira do lugar de conforto das leituras lineares, nos possibilita adentrar camadas mais profundas da linguagem e, porque não dizer, do mundo e de nossa individualidade.

Já existem estudos científicos demonstrando que ler ou ouvir poesia é um importante exercício para o cérebro, pois estimula vias neuronais diferentes daquelas estimuladas pela leitura de textos em prosa. Além disso, produz um estado de relaxamento superior ao da música. Se esse fosse o único motivo para ler poesia, já seria suficiente. Mas não, a poesia pode nos revelar, de forma inesperada e como um espelho, imagens de nosso eu, e também do mundo. Seria por isso que, durante essa pandemia que assola a humanidade, a leitura, escrita e venda de livros de poemas aumentaram significativamente? Estaria esse aumento relacionado a uma necessidade de se buscar um caminho por meio das palavras? Uma forma de expressão e também de compartilhamento de dúvidas em meio a tanta tragédia? Somente o distanciamento temporal poderá nos assegurar disso, mas os livros, as revistas e as redes sociais estão aí para demonstrar o interesse crescente até entre os mais jovens por algo que talvez as gerações anteriores já tenham descoberto: o prazer de ler e escrever poemas.

Ao nos debruçarmos sobre o estudo da poesia, nos deparamos com uma questão muitas vezes negligenciada entre os leitores e até mesmo entre os poetas: a diferença entre poesia e poema. Grosso modo, podemos dizer que a poesia refere-se à essência e o poema à forma. Neste ponto de vista, a poesia, imaterial, transcendente e abstrata, ultrapassa os limites da escrita, podendo estar presente em pinturas, fotografias, paisagens e (por que não?) até mesmo em circunstâncias da vida. O poema, por sua vez, é objeto concreto, expressando-se, na maior parte das vezes pela escrita. Sendo concreto, o poema pode ou não conter a poesia: não se trata meramente da escrita em verso, pois há muitas produções em versos que não causam nenhum arroubo ou estranhamento linguístico, que não contém poesia.

Dentro do clima de acolhimento à eclosão poética, a Revista Bem-estar, do jornal Diário da Região, vem agora apresentar o segundo caderno de poemas selecionados entre tantos aqui já publicados, reafirmando sua consciência da necessidade de se fomentar a poesia, num país tão sofrido e carente dos enlevos e insights provocados por ela. Felizes de nós, seus leitores, por podermos usufruir de tantos poemas de alta qualidade. À sua leitura, então, pois nas palavras do saudoso mestre e pesquisador da Literatura, Alfredo Bosi: “A poesia recompõe cada vez mais arduamente o universo mágico que os novos tempos renegam.”

Vera Márcia Parábolli Milanesi

Psicóloga clínica, mestre e doutra pela Unesp, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (ARLEC)

Vera Márcia Parábolli Milanesi
Psicóloga clínica, mestre e doutra pela Unesp, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (ARLEC) (Mara Sousa 25/10/2017)

Vera Márcia Parábolli Milanesi Psicóloga clínica, mestre e doutra pela Unesp, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (ARLEC) (Mara Sousa 25/10/2017)

 
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