SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2022
Consultório sentimental

Tome muito cuidado com o sujeito que te adoece para não te perder

O psicólogo Alexandre Caprio responde dúvidas de leitores sobre relacionamento

Jessica Reis
Publicado em 07/03/2020 às 00:20Atualizado em 07/06/2021 às 06:19

Olá Alexandre e toda equipe da revista Vida&Arte. Meu nome é H.C.O. e tenho 39 anos. Não sei se o que irei relatar é uma coisa séria, mas me sinto muito mal com isso. Tenho um namorado que é muito legal, temos várias coisas em comum e eu gosto dele. No começo do namoro ele só me elogiava. Era ‘linda’ pra lá, ‘maravilhosa’ pra cá. Depois de um tempo, ele começou a fazer umas piadinhas, como me chamar de velha, de estressada, de boba e até de burra. Percebo que isso está aumentando. Ele diz que sou exagerada, paranóica e chega a dizer que eu estaria perdida se não fosse ele. No começo eu levava na brincadeira, mas agora estou realmente começando a me sentir mal com isso. Trata-se de algo sério ou sou eu quem estou problematizando tudo?

Não, você não está problematizando tudo. Trata-se de um tipo de violência psicológica comumente praticada contra a mulher, que causa muito sofrimento e é muito pouco debatida. O nome é 'gaslighting' e tem origem no filme de 1944 chamado Gaslight, onde um marido destrói de forma lenta e sorrateira a confiança e autoestima da mulher. É praticada por homens inseguros, que tentam criar um estado de ‘anemia mental’ na parceira para que ela se torne completamente dependente dele. Começam um relacionamento exatamente do jeito que você descreveu. Te elogiam e te jogam nas alturas para te fisgar. Enaltecem todas as suas qualidades até terem a certeza de que você está levando o relacionamento a sério. Depois disso, começam as ironias em forma de brincadeira, seguidas de um abraço, um beijinho. São adjetivos que te fazem se sentir velha, feia, ingênua, boba e inocente em relação à vida. A ideia é fazer você chegar lentamente à conclusão de que é completamente despreparada e até indesejada. Enquanto ele cria essa distorção da realidade, vai dizendo que é você paranóica, louca, exagerada, tudo isso para se esquivar de qualquer discussão de relacionamento. Você começa a achar que ele é quase um santo por aceitar ficar na relação e que outro homem não aguentaria conviver com você pelo tempo que ele aguenta. Em resumo, o 'gaslighing' faz você concluir que ele é a única criatura possível na sua vida. Criada as barras da prisão, seu amor-próprio é massacrado enquanto crises de ansiedade ficam cada vez mais intensas. Você acaba em um psiquiatra, que te dá uma lista de remédios e conclui, finalmente, que é louca mesmo e que ele foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida.

Tome muito cuidado com o sujeito que te adoece para não te perder. São eles os verdadeiros fracos que precisam de tratamento e quase sempre se negam a isso. Insistem na prática dessa violência como se fossem afagos, manifestações de carinho ou preocupação. São homens que aprenderam, desde jovens, a tirar sarro dos outros para que não tirem sarro deles. Tentam lidar com seus fantasmas inferiorizando os amigos, as mulheres e até os colegas de trabalho. Mas é contra a namorada ou esposa que a violência geralmente é maior. Só o que eles dizem é verdade, só o que eles fazem é bom. Não aceitam perder tempo discutindo com você. Se percebem que seu argumento é viável, fazem aquela cara de anjo que está desistindo de proteger, vira as costas e te deixa falando sozinha. A grande dica é você imitar o comportamento dele em algumas situações e fazer a mesma coisa com ele. Se ele se sentir irritado ou ofendido com algo igual ao que ele diz, essa é a grande prova de que a intenção dele é machucar você e não cuidar de você. E, claro, se você der esse texto para ele ler, vai acabar ouvindo que, assim como você, eu e o pessoal da redação somos todos loucos. Ainda bem!

Participe, envie suas dúvidas sobre relacionamento para alexandrecaprio@gmail.com

 
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