SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 09 DE AGOSTO DE 2022
ENTREVISTA

Coletivo 'Mães pela Diversidade' fortalece rede de apoio a famílias com filhos LGBTQIA+ em Rio Preto

‘O ativismo me trouxe luz e afastou toda aquela tristeza, toda aquela desesperança que eu me encontrava’, diz a psicóloga Jôse Ferracini Lima, coordenadora do coletivo Mães pela Diversidade, em Rio Preto

Rita Fernandes
Publicado em 25/06/2022 às 05:00Atualizado em 26/06/2022 às 11:49

Há pouco mais de três anos, a psicóloga Jôse Ferracini Lima, de Rio Preto, descobriu que sua filha biologicamente do sexo feminino é, na verdade, uma pessoa trans não-binário de gênero fluído.

Jôse se especializou no assunto e procurou apoio em outras famílias para transformar “medo em luta, medo em orgulho.” Hoje, a psicóloga é ativista e coordenadora do coletivo Mães pela Diversidade, em Rio Preto.

“Conhecer outras famílias e ver outras histórias semelhantes foi muito importante para que eu recuperasse a minha saúde mental. O ativismo me trouxe o conhecimento, me trouxe luz e afastou toda aquela tristeza, toda aquela desesperança que eu me encontrava”, diz. Em homenagem ao Dia do Orgulho LGBT, comemorado nesta terça-feira, dia 28 de junho, a Revista Bem-Estar convidou a psicóloga e ativista para um bate-papo acolhedor para mães, pais e familiares da comunidade LGBTQI+. 

 Revista Bem-Estar - Hoje você é uma das principais ativistas do coletivo Mães pela Diversidade em Rio Preto. Mas como foi que o tema diversidade entrou na sua vida?

Jôse Ferracini Lima - O tema diversidade ganhou a minha atenção quando o meu filho(a) verbalizou que não se identificava com o gênero que lhe foi designado no nascimento. Eu pouco sabia sobre pessoas transgêneros e sabia que só buscando informações poderia acolher e tomar as decisões certas para iniciar essa caminhada. Uma experiência familiar me aproximou da comunidade LGBT. O Mães Pela Diversidade foi importante para o meu conhecimento e desconstrução dos meus preconceitos. Eu e o meu marido estávamos em grande sofrimento, não por ter um filho(a) trans, mas porque nós tínhamos muitos conceitos errôneos e era preciso passar por essa desconstrução. E sozinhos não seria possível. Então, conhecer outras famílias e ver outras histórias semelhantes foi muito importante para que eu recuperasse a minha saúde mental e transformasse medo em luta, medo em orgulho. A entrada e o acolhimento no grupo Mães Pela Diversidade foi importante pra mim. O ativismo me trouxe o conhecimento, me trouxe luz e afastou toda aquela tristeza, toda aquela desesperança que eu me encontrava.

 BE - A partir do momento que descobriu ser mãe de um(a) pré-adolescente não-binário, você estudou sobre o assunto e foi uma das primeiras pessoas de Rio Preto a pedir o nome social. Essa decisão foi difícil para você?

Jôse - A transição social foi difícil no início porque eu pensava precisar de mais tempo para tomar as decisões que acarretariam em mudanças, mas não era o meu tempo e sim do meu filho(a), a sua existência e a consolidação da sua identidade precisavam acontecer diante da sociedade. E quando ouvia o relato de outras mães e sabia que apesar de apoiar nossos filhos, a angústia e as incertezas nos acompanhavam, tomei a decisão de pedir a inserção do nome social no documento. Até porque ter um documento oficial facilita o seu uso, traz credibilidade, pois infelizmente a maior parte da população desconhece que é um direito. Não precisa ter nenhum documento atestando, basta a pessoa dizer e no caso de menores ter autorização dos pais.

 BE - E quais foram os impactos do nome social e expressão social na vida de seu filho(a)?

Jôse - Tornou a vida mais leve, com menos explicações. A cada consulta ter que pedir e explicar para a secretária usar o nome social, recebendo olhares de desaprovação ou de perguntas indiscretas, eram violações de direito. Eu vario o uso dos pronomes com relação ao meu adolescente, ora é ele e em outros momento ela, pois se identifica como uma pessoas trans não-binária – gênero fluído.

 BE - Como funciona o nome social?

Jôse - O uso do nome social é um direito das pessoas trans, conforme Decreto Nº 8.727 de 28 de abril de 2016. Em todos os domínios. Menores de 18 anos precisam ter autorização dos pais. A inserção do documento de identidade é feita no Poupatempo.

 BE - Será que esse momento é o mais difícil, porém o mais importante na vida dos pais e também dos LGBTQI+, em termos de saúde mental e emocional e qualidade de vida?

Jôse - Acredito que o mais importante é o real acolhimento, que é diferente de aceitação, quando de fato os pais compreendem que ser uma pessoa trans implica na construção de uma outra identidade, não aquela que foi imposta pela sociedade. O nome social é um renomear esse processo, faz parte desta nova constituição enquanto pessoa, é a afirmação da sua identidade. E se isso não é respeitado, pode gerar sofrimento e acarretar prejuízos à saúde mental, que se somam a outros direitos violados.

 BE - O momento de descoberta e aceitação é repleto de dúvidas que os outros pais não podem ajudar. Só quem passa por essa situação consegue realmente ajudar outros pais. Nesse sentido, qual é a importância do coletivo Mães pela Diversidade?

Jôse - O coletivo Mães pela Diversidade é um espaço de luta por direitos dos nossos filhos, filhas e filhes, mas também um espaço de acolhimento para as mães e pais das suas dores e da falta de informação. Tendo como objetivo ser uma rede de apoio, somar vozes, compartilhar histórias, lutar por direitos, combater o preconceito e denunciar injustiças. Sentir que você não está sozinha, pois você enquanto mãe acaba sendo alvo de muitos julgamentos e algumas pessoas podem até se afastar. De início é um processo doloroso, mas depois torna-se libertador, pois você acaba escolhendo quem de fato é merecedor do seu convívio familiar.

BE - Você acha que as mães pela diversidade têm o acolhimento que merecem, por parte da sociedade? Quais são os desafios?

Jôse - Se os nossos filhos não são acolhidos nós também não somos. É claro que a vivência de ser LGBTQIA+ é deles - não sentimos na pele o que eles sofrem, mas somos atacadas e desacreditadas enquanto famílias, por isso o coletivo, a união é tão importante. Somamos forças para lutar por direitos e ter o sentimento de pertencimento. O grupo Mães pela Diversidade é uma associação laica, independente e suprapartidária. Os principais objetivos do Grupo são o acolhimento de mães e pais LGBTQIA+, a defesa da criança LGBT e a luta pelos direitos de seus filhos LGBTQIA+. Em grandes centros, o Mães pela Diversidade tem o seu reconhecimento por parte da sociedade. O grupo é convidado para dar capacitação e fazer palestras em multinacionais. Tem o seu reconhecimento por parte daqueles que defendem os direitos humanos e já foi premiada nacionalmente e internacionalmente. Mas quando chegamos no interior do País o trabalho é mais complexo e exige maior esforço. O (coletivo) Mães pela Diversidade conta com coordenação estadual e tem seu contato nas redes sociais. O Instagram é @maespeladiversidade, mas no Facebook o grupo é fechado e após o acolhimento da coordenação se faz a inserção no grupo maespeladiversidade.

 BE - As mães de filhos LGBTQIA+ só querem que seus filhos tenham o mesmo respeito que os demais. Na sua opinião qual é o principal motivo desse desrespeito?

Jôse - Um somatório de fatores. Falta informação, crenças preconceituosas e estruturais, que estigmatizam as minorias sexuais.

 BE - As escolas, os hospitais e as empresas, de modo geral, estão preparadas para receber pessoas não-binárias / trans? O que poderia ser feito por essas entidades?

Jôse - Ainda não. É preciso levar informação e capacitar os gestores, funcionários. Não basta incluir, empregar, temos que dar condições de permanência das pessoas trans nestes ambientes.

 BE - Como é o acompanhamento médico de rotina de uma pessoa trans ou não-binária? Se precisar buscar um profissional de acordo com seu sexo biológico - ginecologista, por exemplo - o homem trans se sente acolhido?

Jôse - Existe um déficit na formação acadêmica, por isso a maioria dos profissionais de saúde não tem contato com os temas relacionados a comunidade LGBTQIA+. No meio acadêmico tem surgido cursos de qualificação e até mesmo a inserção na grade curricular sobre essa temática. E o preconceito estrutural é pertencente a todos nós, por isso a importância do autoconhecimento e da empatia, de modo geral.

 BE - Os banheiros de espaços públicos ainda são um assunto polêmico. Quais são as dificuldades que a comunidade LGBTQI+ enfrentam e quais são as possíveis soluções?

Jôse - Banheiro é tabu na nossa sociedade e mais uma forma de controle sobre os corpos LGBTQIA+. Quando eu não permito que a pessoa use o banheiro com o qual ela se identifica eu estou negando a sua existência, a sua identidade. Identidade é construção social e não é definida por órgãos sexuais. Banheiro é local para realizar necessidades fisiológicas, apenas isso, mas a sociedade cis heteronormativa dita todas as regras. O que poderia ser resolvido talvez com um banheiro unissex, mas o cerne da questão é muito mais profundo. Só com informações podemos mudar os preconceitos. No último final de semana estive em um restaurante/cafeteria em São Paulo e o banheiro era unissex, muito mais simples, sem filas, cabines separadas, nenhum constrangimento.

 BE - Você acha que é importante falar de diversidade durante a gestação (ou para quem quer ter filhos) para evitar “frustrações”, já que espera-se ter filhos binários (e héteros)?

Jôse - É uma percepção difícil de ser alcançada. Nossa sociedade é binária e estamos muito longe de alcançar essa evolução, os retrocessos são muitos, como exemplo temos agora o chá revelação. Mas o questionamento se faz em pequenas ações, desde a compra de um presente para criança. Quando me é perguntado se é menino ou menina, eu respondo não sei ainda, só sei que é humano. Lembrando que roupa e brinquedo não têm gênero.

 BE - Rio Preto já tem uma rede de apoio com profissionais especializados para atender a diversidade?

Jôse - Sim, com poucos profissionais. Existe o ambulatório TT, mas só para maiores de 18 anos de idade, e na rede privada aqueles que buscaram especializações para o atendimento qualificado das pessoas LGBTQIA+.

 BE - Algumas pessoas acham que a mídia está perdendo o limite em informar, passando a naturalizar e estimular a diversidade. Qual é sua opinião sobre isso?

Jôse - Informar é necessário e ter visibilidade, representatividade diminui preconceitos. Ninguém se torna LGBT por imposição, pois não é escolha, não é opção.

PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+ DE RIO PRETO 2022

Dia 26/6/2022

A partir das 12h – Concentração de trios em frente ao prédio da Prefeitura de Rio Preto (avenida Alberto Andaló)

Das 12h às 16h – Apresentação de DJs

Das 16h às 17h30 – Os trios sairão em passeata até o estacionamento do Centro Regional de Eventos (avenida José Munia, 5650)

Das 17h30 às 20h – Apresentação de shows drags, músicos e cantores do cenário LGBTQIA+ regional e a apresentação de ativistas

Após 20h – After Pride na Mixed Club

 Atrações:

Djs Trio Principal: Karol Reis, Tatiê, Victor Barrela, Vix e Rodrigo Mabel

Djs Trio Bora pro Rolê: AMJ, Gui Marques, Felipe Gouveia e Barbara Ananda

Shows: Watuzi Cox, Naly Picumã, Ágatha Renard, Joanna Blac, Jessie Jhay, Kyara Arayk, Maytê Velask, Allana Peixoto, Maya Montinegro e Viktor.

Apresentação: Margoth Killer e Kitanna Kay

Organização: Coletivo Mais Orgulho Rio Preto

 Informações: (17) 98192-6595 | e-mail: maisorgulhoriopreto@gmail.com

Mães pela Diversidade durante gravação do Profissão Repórter, no ‘esquenta’ da Parada do Orgulho LGBT, na Avenida Paulista (Arquivo Pessoal)

Mães pela Diversidade durante gravação do Profissão Repórter, no ‘esquenta’ da Parada do Orgulho LGBT, na Avenida Paulista (Arquivo Pessoal)

 
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