SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 16 DE JANEIRO DE 2022
ENTREVISTA

A Coisa

Orlandeli usa os quadrinhos para colocar as doenças emocionais em pauta

Rita Fernandes
Publicado em 18/12/2021 às 05:30Atualizado em 18/12/2021 às 05:40

Ninguém quer um encontro com o indesejável. Mas, às vezes, o indesejável é inevitável, assim como acontece com Astolfo, personagem criado pelo quadrinista e ilustrador Orlandeli, de Rio Preto. “A Coisa” é aquela companhia que chega sem pedir licença, te persegue e invade a sua mente diante da frustração de perceber o quão frágil são os nossos planos”, diz o autor.

“Depois de receber uma notícia indesejada, Astolfo passa a ser perseguido por uma criatura grotesca e, ao mesmo tempo, apática. Ele vê ‘A Coisa’ entrar em sua vida de forma quase onipresente. Uma presença perturbadora que invade cada brecha de privacidade de uma vida que busca uma direção para seguir adiante. Astolfo não quer essa companhia, mas isso não é uma opção”, explica.

A vida real está cheia de Astolfos. E, por isso, Orlandeli diz que é tão importante usar as HQs para falar das doenças emocionais. O projeto foi um dos ganhadores do Proac 2020 (Programa de Ação Cultural) do Estado de São Paulo. O livro, da Editora Gambatte, tem pré-vendas pelo Catarse - uma das principais plataformas de financiamento coletivo do País (www.catarse.me/acoisa). Com um texto ágil e uma narrativa gráfica divertida, “A Coisa” busca um olhar honesto diante do difícil exercício que é viver e conviver com os amores e as dores da vida. Leia a seguir a entrevista que Orlandeli concedeu à Revista Bem-Estar.

Revista Bem-Estar - Como surgiu a ideia de fazer uma HQ sobre “A Coisa”?

Orlandeli - A ideia original não era exatamente fazer uma HQ. Passei por um período absolutamente complicado. Um processo lento que envolveu um pouco de tudo, amor, dor, questionamentos, fé, raiva, esperança e, por fim, tristeza.

Durante esse período eu nunca abandonei a rotina. Nem dava. As pequenas tarefas do dia precisam ser feitas, independente do acaso. Um dia no supermercado estava comprando café e me dei conta que, até ali, em frente a uma prateleira de mercado, a sensação pesada de tudo o que estava acontecendo me acompanhava. A vantagem de se trabalhar com arte é poder mergulhar em seus sentimentos e, de alguma forma, colocar um pouco disso pra fora. Eu funciono um pouco assim. A angústia não me afasta da produção, muito pelo contrário, sinto até uma necessidade quase vital de criar alguma coisa.

Pode vir na forma de um texto, um desenho… Naquele dia veio na forma dos dois. Uma imagem junto com um pequeno texto (ilustração acima). Olhei para aquilo e na hora de salvar o arquivo tinha que escolher um nome. Não sabia como chamar aquilo. Fui lá e digitei “A Coisa”. Fiz uns 3 desenhos nessa linha e não mexi mais. Passados dois anos eu queria inscrever um projeto para o Proac e lembrei de A Coisa. Pensei que era hora de mergulhar um pouco mais naquilo. Revisitar aquela sensação e tentar entender melhor o que é isso tudo. Mandei o projeto e ele foi selecionado pelo edital, viabilizando a produção.

 Bem-Estar - Qual é a importância de usar a HQ para falar sobre as doenças emocionais? E qual é a responsabilidade, já que é preciso ter muita sensibilidade para falar com leveza e um toque de humor?

Orlandeli - Tem a importância de colocar o assunto em pauta. Não fechar os olhos para a vida que não está no Instagram. Os quadrinhos têm um potencial incrível de comunicação. Sua narrativa envolvendo imagem e texto possibilita navegar sobre sensações de um jeito único. A responsabilidade, penso, tem a ver com a honestidade da narrativa. É a única coisa que me importa. Estou falando basicamente da minha relação com A Coisa, a forma como eu consigo retratar e lidar com essa sensação. Tem hora que é insuportável, simples assim. Não tem leveza. Por outro lado, é algo que o personagem busca a todo momento, e nessa busca surgem diversos olhares. E eles se misturam, as sensações se misturam. Nada é definitivo. No fundo a história fala um pouco sobre isso, o fato não muda, o que muda é o seu jeito de olhar para ele.

 Bem-Estar - O Astolfo, assim como todos nós, fica confuso, cansado, irritado, afinal ninguém quer um encontro com o indesejável. Como algumas companhias a gente não escolhe, qual é a melhor forma de conviver?

Orlandeli - Penso que a relação é a mesma quando se tem ao lado qualquer outra companhia indesejada, onde sair ou expulsar o indivíduo não é uma opção. Tentar deixar claro que você também está ali e que o espaço não pode ser todo dela.

 Bem-Estar - “A Coisa” é aquela criatura indesejada, que fica ao nosso lado independente da nossa vontade. E, na sua opinião, por que cada vez mais essa “criatura” tem incomodado tanto as pessoas, independente da idade e classe social?

Orlandeli - A Coisa geralmente aparece quando existe uma frustração, uma perda diante das suas expectativas. Pode ser qualquer coisa: Um ente querido, um relacionamento, um sonho profissional… Não dá pra medir a dor do outro. A potência dessa sensação está diretamente relacionada ao valor dado àquilo que se perde e a forma como me relaciono com isso. Vivemos uma cultura de valorização da imagem, uma busca desmedida por curtidas e seguidores. Ser feliz não é mais visto como um momento, mas uma condição. Para os seguidores a pessoa não ESTÁ feliz, ela É feliz. O que cria uma expectativa irreal diante da impermanência que é a vida. Talvez essa negação ao direito de reagir como se deve a “um dia ruim” tenha gerado mais frustrações do que deveria. A tristeza é uma sensação tão legítima como qualquer outra. Conviver e aceitar as nossas emoções é não virar escravo delas.

 Bem-Estar - Justamente porque o acaso chega sem pedir licença, mudando os planos de vida, essa “Coisa” incomoda muito mais nesta época de fim de ano. Como lidar com essa situação?

Orlandeli - Incomoda justamente porque tudo que envolve as festas e decorações de final do ano passam uma imagem de conto de fadas. Tudo em volta são só luzes, famílias perfeitas cantando em coro, mesa farta, presentes, agradecimentos… É frustrante a constatação de que nada disso combina com o que você está sentindo. A sensação é de um contraste de realidades absurdo. A melhor forma de lidar é lembrar que esse mundo cheio de luz e perfeição não é real. Tirando os cartazes, as luzes e vídeos de propaganda, a vida das pessoas de carne e osso continua seguindo com seus amores e dores em todos os meses do ano. Tudo bem amar e chorar em dezembro.

 Bem-Estar - Geralmente os amigos e familiares não entendem a presença da “Coisa” ao nosso lado. Tentam ajudar e se sentem frustrados. Na sua opinião, como alguém poderia ajudar o Astolfo?

Orlandeli - Não dá para culpar quem não entende. Até porque é bem difícil, não existe manual de instruções de como aprender a lidar com isso… Talvez assumir essa limitação, de que não consegue dimensionar a dor do outro, seja um bom primeiro passo. É bom ficar por perto. Tem gente que foge do desconforto por não saber o que fazer. Se distancia para pelo menos “não atrapalhar”. Ninguém vai te ligar pedindo ajuda, mas é evidente que precisa. Esteja presente, escute muito e tenha paciência.

 Bem-Estar - O que é melhor: aprender a se relacionar ou se livrar dela?

Orlandeli - Tentar se livrar seria o mesmo que “isso não aconteceu”.

 
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