SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 16 DE MAIO DE 2022
ENTREVISTA

A Ciência do Sentir

Livro da psicóloga e escritora carioca Beatriz Breves “Entre o mistério e a ignorância - O Desvendar da Psique Humana” transcende a psicologia e a psicanálise e passa, além da arte, também pela biologia e física

Jéssica Reis
Publicado em 19/01/2022 às 19:30Atualizado em 19/01/2022 às 20:07

O que você espera sentir nos próximos meses deste ano? Medo, esperança, ansiedade? Como organizar os sentimentos para fazer deste um ano melhor que 2021? A psicóloga, psicanalista e psicoterapeuta carioca Beatriz Breves, estuda os sentimentos há 35 anos, e tem 8 livros sobre o tema. Em entrevista à Bem-estar, Beatriz fala sobre seu mais recente livro ‘Entre o mistério e a ignorância - O Desvendar da Psique Humana’ (Mauad X, 2021), a importância de reconhecer e identificar os sentimentos, e sobre como trabalhar uma mentalidade mais positiva no dia a dia em 2022.

 Bem-estar - Beatriz, seu livro mais recente reúne seus estudos sobre a Ciência do Sentir. O que é a Ciência do Sentir?

Beatriz Breves - No campo da psicologia, através de suas escolas teóricas, prevalece a concepção científica que, desde o século XVII, se baseia no materialismo mecanicista. Nesse conceito, ao impor a primazia da razão, o ser humano é concebido como uma máquina perfeita, cujos sentimentos e emoções são compreendidos como efeitos neuronais.

Tendo cursado física, com o único objetivo de buscar outras concepções de mundo e ao agregá-la à psicanálise, psicologia, biologia, artes, não só penetrei no campo da transdisciplinaridade como migrei da visão mecanicista para a visão vibracional de universo. E assim nasceu a Ciência do Sentir que, como escrevi, “se propõe como um campo de pesquisa, dentro do campo da ciência, que tem como objeto de estudo o sentir (…)” (2001, p.13).

A partir desse olhar, o sentir é compreendido como a experiência vibracional que o ser humano vivencia de si enquanto vibração, que é e se constitui em sua própria estrutura. Ele (o sentir) ocupa o lugar de ator principal na vida humana.


Bem-estar - Qual a importância de reconhecer e identificar os sentimentos?

Beatriz - Primeiro, considero importante a compreensão de que não é possível se livrar de um sentimento. Temos, sim, a possibilidade de transformá-lo, investindo em novos agrupamentos entre eles e, também, de reprimi-lo, o que se configura uma aparente solução, pois o sentimento continua minando inconscientemente no mundo interno.

Em sendo assim, se considerarmos que são mais de 500 sentimentos interagindo entre si, com as mais diversas possibilidades de agrupamentos, conseguir reconhecer e identificar os sentimentos é poder se reconhecer como pessoa.

Conforme escrevi: “como músicos de uma orquestra, os sentimentos estão sempre juntos, prontos para realizar um recital, no qual cada experiência vivida assume o lugar de maestro, que irá determinar os que serão tocados naquele instante e os que permanecerão inativos. Assim, não há por que reprimir os sentimentos, mas é preciso aprender a administrá-los e ser o seu próprio regente.” (2018, p.19).

Resumindo: saber reconhecer, identificar e administrar os sentimentos é, sem dúvida, estabelecer uma conexão interna consigo mesmo, reunindo elementos para reger a própria vida com mais qualidade e satisfação.


Bem-estar - Em tempos de pandemia as pessoas sofreram com isolamento e a angústia de não saber o que viria pela frente. Como organizar os sentimentos para que este ano seja melhor, apesar de ainda estarmos vivendo uma pandemia?

Beatriz - No caso do sofrimento provocado pela pandemia, entre eles, promovidos pelos sentimentos de solidão, incapacidade, impotência, tristeza, etc., a pessoa teria basicamente dois caminhos a investir. Um deles seria agregar os sentimentos de desespero, derrota, revolta, etc., que tenderiam a amplificar o sofrimento. Por outro lado, poderia agregar os sentimentos de calma, esperança, força, determinação, etc. que tenderiam a aliviar a dor sentida.

Valendo-me de uma analogia, gosto de usar o que tenho chamado de “modelo de salada de frutas”. Se ao preparar uma salada de frutas estiver predominando, em função do excesso de abacaxi, o sabor azedo, em se investindo em mangas, bananas, enfim, em frutas de sabor mais doce, a tendência é adocicar a salada de frutas. Assim como acontece em uma salada de frutas, também acontece com os sentimentos.

 

Bem-estar - Sentimentos bons e ruins podem nos ensinar alguma coisa?

Beatriz - Em se compreendendo o ser humano pela visão vibracional, não há coerência em falar em sentimentos bons ou ruins, no sentido de construtivos ou destrutivos, mas sim em sentimentos bons ou ruins, no sentido de prazerosos ou não prazerosos de se sentir.

Tome por exemplo os sentimentos de pessimismo e otimismo. Em sendo compreendido o pessimismo por esse olhar, ao ser ativado ele pode funcionar como um alerta, no sentido da pessoa avaliar até onde de fato se sentir pessimista tem procedência diante dos acontecimentos ou é apenas um sentimento que estaria sendo agregado ao de baixa autoestima. Nessas duas situações há o que aprender, tanto no sentido de reavaliar a estratégia frente a situação como em buscar recursos internos para aumentar a autoestima.

Quanto ao sentimento de otimismo, tal qual o de pessimismo, também pode funcionar como um alerta, no sentido da pessoa avaliar até onde de fato se sentir otimista tem procedência diante dos acontecimentos ou se é um sentimento que estaria sendo agregado ao medo de se sentir incapaz e frustrado.

Por essa concepção, os sentimentos mais do que “falam” as nossas vidas, eles ditam os nossos caminhos.

Bem-estar - É possível ter uma mente mais positiva no dia a dia? De que forma?

Beatriz - Entendo que é possível se a pessoa conseguir mudar a percepção de si mesma passando a se conceber como um complexo vibracional, abdicando do olhar de si mesma como uma máquina perfeita. E que se diga, complexo este que, a todo instante, a cada interação, estará vibrando, portanto, levando a pessoa a sentir. Conseguindo essa mudança, a tendência é a pessoa, aprendendo com os seus sentimentos, harmonizar o seu mundo interno e olhar a vida com mais positividade.

Até porque, posso arriscar dizer que maioria das pessoas já vivenciou a experiência de que, estando satisfeita e sentindo-se feliz, tende a ter muito mais facilidade para lidar com os possíveis tropeços que possam surgir em sua vida. O contrário, estando insatisfeita e sentindo-se infeliz, tenderá a ter muito mais dificuldade para aproveitar as possíveis benesses que a vida possa lhe oferecer.

 
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