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RIO PRETO

Dez anos depois, personagens das 'jornadas de junho' de 2013 se dizem 'desiludidos'

Reportagem do Diário ouviu manifestantes e ‘revisitou’ movimentos que protagonizaram em Rio Preto os atos de 2013 e tudo o que veio depois nesta vertiginosa década da política brasileira

por Heitor Mazzoco
Publicado em 17/06/2023 às 19:15Atualizado em 18/06/2023 às 07:48
Manifestantes na Avenida Alberto Andaló, em Rio Preto: movimento desembocou, depois, nos atos em favor do impeachment de Dilma (PT) (Arquivo Diário/2013)
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Manifestantes na Avenida Alberto Andaló, em Rio Preto: movimento desembocou, depois, nos atos em favor do impeachment de Dilma (PT) (Arquivo Diário/2013)
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Há 10 anos, em junho de 2013, um grupo de estudantes saiu às ruas contra o aumento de 20 centavos de real na tarifa de transporte público da gestão Fernando Haddad (PT), em São Paulo. A eclosão coincidiu com a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, de 2011, que diminuía o poder investigativo do Ministério Público. A pressão popular fez com que deputados federais rejeitassem o projeto no dia 25 daquele histórico mês por 430 votos.

Posteriormente, as manifestações ganharam adeptos e aquele movimento conseguiu uma façanha: espalhar-se por diversas capitais e cidades do Interior, como Rio Preto, abarcando uma profusão de pautas e reunido diferentes setores da sociedade.

“Tinha para todos os gostos, todas as sensibilidades políticas, tribais, corporativas. Era muito amplo, muito variado. Mas eu acho que, na essência, ele representou uma explosão de saco cheio, de profunda rejeição à uma situação vivida pelas pessoas, e não só pelos que saíram às ruas, mas porque muita gente que apoiou sem ter saído na rua”, lembra o então senador da República pelo PSDB Aloysio Nunes. “Uma manifestação acima, como que uma explosão, uma explosão de descontentamento contra tudo. É um pouco semelhante ao que aconteceu na França, em maio de 68.”

Susto

Todos os governantes e opositores foram pegos de surpresa com aquelas manifestações que duraram meses e, principalmente, por dar guarida para diversas frentes. À época, Dilma Rousseff (PT) tentou acalmar manifestantes que, por pouco, não invadiram o Congresso Nacional em 17 de junho. Foi naquele ano que o Poder Executivo criou a delação premiada (lei 12.850, de 2 de agosto de 2013) em investigações criminais ­– posteriormente muito utilizada por acusados na Operação Lava Jato.

Em Rio Preto, a cada movimento nas capitais – principalmente São Paulo e Brasília ­–, os manifestantes conseguiam aumentar o apoio. Entre 21 e 22 de junho de 2013, a rodovia Washington Luís foi tomada por cartazes e gritos de ordem e as reclamações chegaram ao plenário da Câmara de Rio Preto, o que assustou vereadores. Ao mesmo tempo, começava a organização de grupos, uma espécie de “sucursais” dos movimentos das capitais, como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL).

Nasce o MCB

Grupo 100% rio-pretense que se mantém ativo até hoje, o Movimento Cidadania Brasil (MCB) é cria de 2013. Capitaneado por empresários e profissionais liberais da cidade, o movimento se converteu ao bolsonarismo raiz após as eleições de 2018.

De junho de 2013 para cá, a política brasileira não parou e os protestos daquele ano continuam a ter desdobramentos. Eleições de 2014, 2018, 2022, impeachment e Lava Jato estão guardados na intensa década que passou. Muitos personagens dos últimos 10 anos, no entanto, mostram-se desanimados, chateados e tristes com os rumos políticos do país.

‘Desesperança’

Jornalista, escritor e professor em Rio Preto, Romildo Sant’Anna, que já foi petista e lulista quando o Partido dos Trabalhadores ainda nem sonhava em chegar ao poder, participou na avenida Andaló de manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, ele avalia que o Brasil está em uma crise política.

“O país, a duras penas, se livrou duma ditadura e caiu em outra. Restabeleceu-se a censura com o silêncio e aprovação de parte da imprensa e de setores civis poderosos. O propalado Estado Democrático de Direito e a segurança jurídica estão em colapso. Os últimos dez anos colocaram nosso país numa crise política, ética e moral difícil de ser superada. Isto abre aos nossos pés a cova do descrédito nas instituições, a cisão absurda da sociedade e clima de desesperança”, disse.

Outra personagem do período é a médica cardiologista do Hospital de Base (HB) Lilia Nigro, que liderou o Vem pra Rua em Rio Preto e conseguiu grande apoio de seus colegas no maior complexo hospitalar da região. Hoje, ela diz estar triste com os resultados do período.

‘Decepção’

“Eu estava empenhada, saía às ruas achando que o Brasil ia ter jeito. Não só me entristece em relação a decepção com os políticos, mas com as pessoas. Ao invés de termos eleitores e cidadãos conscientes que cobrassem, o que a gente vê é torcida organizada, não é cidadão que tenha consciência que contratou um funcionário público para cuidar do país (...) Eu tenho 65 anos e não sei se vou conseguir ver de novo meu país de uma forma que tenha alguma esperança, porque as mudanças devem partir das pessoas”, disse.

‘Legado’

Warlen Miller, um dos fundadores do MBL em Rio Preto, afirma que os movimentos fizeram com que as pessoas assumissem suas posições ideológicas. No entanto, a direita, hoje, foi derrotada pela falta de união.

“A direita no Brasil ficou evidente e a pessoa vestiu a roupa a partir dessas manifestações de rua. Esse despertar fez com que todo mundo se juntasse contra o PT e contra corrupção. Na eleição já havia várias rupturas e começou toda treta, toda briga”, disse. Miller ainda é um pouco otimista e diz que a década serviu para que a população acompanhe de perto e saiba as movimentações dos Poderes. Hoje, ele está fora do MBL, mas diz não ter saído brigado e tem portas abertas no movimento.

Fama e votos

Personagens da última década que ficaram conhecidos em todo país também têm laços com Rio Preto. Janaina Paschoal, que assinou pedido de impeachment contra Dilma Rousseff (PT) ao lado de Miguel Reale Junior e Hélio Bicudo, sentiu o retorno de suas ações nas urnas. Em 2018, ela conseguiu mais de 2 milhões de votos para deputada estadual. Destes, quase 30 mil em Rio Preto. “Até hoje eu não sei como isso aconteceu. Uma pessoa que nunca morou em Rio Preto conseguiu mais votos que todos os políticos nascidos aqui”, disse um integrante da alta cúpula da política rio-pretense, sob anonimato.

Ao Diário, Janaína demonstrou insatisfação com governo de Jair Bolsonaro e disse que o país “não é para amadores”. “Veja, por óbvio, eu não estou feliz com o cenário atual. O grupo afastado (PT) voltou com maior força. Mesmo a direita que chegou ao poder se mostrou tão incompetente, que devolveu o país ao grupo anterior. No âmbito judicial, o retrocesso, em termos da necessária depuração, entristece. Muitas anulações em contexto de desvios reais de recursos públicos”, disse a professora de direito da Universidade de São Paulo (USP). Não me arrependo de ter denunciado o que denunciei e de ter defendido o que creio seja o melhor para nosso país. Talvez o maior dos erros tenha sido, no afã de fugir da esquerda, eleger uma pessoa que não tinha condições de enfrentar os desafios postos.”

Lava Jato

Carlos Fernando dos Santos Lima, ex-procurador da Lava Jato, ficou conhecido como um habilidoso integrante do Ministério Público Federal (MPF) para convencer advogados e acusados sobre a eficiência da delação premiada. Foi a partir daí que diversas condutas criminosas foram reveladas. Hoje, fora da Lava Jato e do MPF, Santos Lima disse que o país corre risco de regredir.

“Vivemos hoje, sob a justificativa de defesa da democracia, uma subversão dos princípios constitucionais, usando o STF como um tribunal de exceção, com a extensão do foro privilegiado contra representantes comerciais, donas de casa, motoristas, etc, como se um ataque à democracia pudesse ser combatido com outro ataque. A situação é muito preocupante, com tentativas de fazer calar qualquer crítica. Infelizmente sem uma reação popular legítima, pacífica, paciente e bem orientada para a defesa dos princípios democrático e republicano, iremos regredir 30 anos em nosso processo de tornar este país justo e livre da corrupção”, afirmou ao Diário.

Entre descontentamento e tristeza, os últimos 10 anos turbulentos na política brasileira podem ser resumidos na frase do ex-senador Aloysio Nunes, que se atenta para os pedidos de melhorias feitos a partir de junho de 2013.

“Todos foram apanhados de surpresa (com as manifestações), tanto governo, quanto oposição. Eu até fiz um discurso sobre isso no Senado. No momento, no calor dos acontecimentos, mas foi algo que pegou todo o sistema político de calça curta. Não só o governo, como a oposição também. Falta de resposta para os problemas que a população estava sentindo e ainda assim essas respostas ainda estão pendentes.”