Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal

Prefeitura rompe convênio milionário e Bottas tira licença

Contratação de R$ 11,9 mi com a Santa Casa de Casa Branca será anulada, segundo a Prefeitura; governo irá abrir sindicância para apurar contratação e quer devolução de valor adiantado

por Vinícius Marques e Maria Elena Covre
Publicado em 05/05/2026 às 00:36Atualizado em 05/05/2026 às 09:35
Rubem Bottas, secretário de Saúde agora licenciado, com o prefeito de Rio Preto, Coronel Fábio Candido (Divulgação/Prefeitura de Rio Preto)
Galeria
Rubem Bottas, secretário de Saúde agora licenciado, com o prefeito de Rio Preto, Coronel Fábio Candido (Divulgação/Prefeitura de Rio Preto)
Ouvir matéria

Dez dias depois de anunciar como "marco histórico" de Rio Preto um mutirão para acabar com fila de espera por exames de imagem no SUS, o governo do Coronel Fábio Candido (PL) divulgou que vai anular o convênio entre a Secretaria de Saúde do município e a Santa Casa de Casa Branca. A decisão é motivada por pressão de uma CPI na Câmara e intenso desgaste político decorrentes das condições do contrato, firmado sem licitação.

O convênio no valor de R$ 11,9 milhões foi assinado no dia 17 de abril pelo secretário de Saúde, Rubem Bottas, depois de uma aprovação em urgência no Conselho Municipal de Saúde. Nesta segunda, 4, o governo do Coronel Fábio Candido (PL) anunciou a rescisão da contratação, alvo de uma série de questionamentos.

Na Câmara, a oposição, que é minoria, contou com apoio até de governistas para viabilizar a abertura de uma CPI. Também foram encaminhadas representações para apuração no Ministério Público, Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) e Ministério da Saúde.

Além da rescisão do convênio, a Prefeitura informou que irá abrir sindicância sobre o caso e notificar a Santa Casa de Casa Branca para devolução de valores já repassados. Bottas tirou licença do posto de secretário da Saúde. O secretário de Administração, Frederico Duarte, ficará a cargo da apuração da sindicância e também irá responder interinamente pela pasta.

O mutirão formalizado pelo convênio previa 62,9 mil exames de imagem que deveriam ser realizados em três meses. Para tanto, a Santa Casa de Casa Branca deveria contratar uma empresa para fornecer seis carretas previstas no mutirão.

A Santa Casa chegou a passar por intervenção no ano passado, determinada pela Prefeitura de Casa Branca, município que tem cerca de 28 mil moradores e fica a 300 quilômetros de Rio Preto.

Devolução

Do total previsto no convênio, a Secretaria de Saúde já repassou R$ 4,7 milhões à Santa Casa e agora irá notificar a instituição para devolução de valores. O repasse foi constatado pelo Diário no mesmo dia em que o programa foi anunciado pelo prefeito e pelo secretário agora licenciado, em 24 de abril.

Em comunicado divulgado nesta segunda, 4, o governo do Coronel Fábio Candido afirma que o prefeito "determinou a notificação da entidade conveniada para início do procedimento de recomposição dos recursos pagos antecipadamente, observado o procedimento administrativo próprio".

'CAUTELA'

A Prefeitura afirmou também que a decisão foi tomada por "cautela administrativa e segurança jurídica". Segundo o município, a medida foi tomada depois de análise de que as condicionantes apontadas pela Procuradoria-Geral do Município não foram integralmente demonstradas no processo. O parecer foi encaminhado pela PGM à Secretaria de Saúde antes da assinatura do convênio.

Na última terça, quando esteve na Câmara falar do convênio, Bottas foi questionado por vereadores sobre apontamentos da Procuradoria-Geral do Município. Respondeu que situações assim eram comuns e que as observações teriam sido atendidas. Na mesma sessão, ele defendeu a legalidade da contratação e disse que, por se tratar de convênio, não seria necessária abertura de licitação.

O Diário solicitou cópia desse parecer à assessoria da Prefeitura, mas o documento não foi encaminhado.

Sindicância

De acordo com o comunicado da Prefeitura, será "instaurada sindicância para apurar a tramitação, autorização e execução inicial do convênio, presidida pelo secretário de Administração, Frederico Duarte". O convênio, conforme cópia encaminhada à Câmara, foi assinado por Rubem Bottas e o provedor da Santa Casa de Casa Branca, Willian Vieira Lemes.

Licença

Segundo a assessoria da Prefeitura, Bottas pediu o afastamento do cargo para dar transparência às apurações internas. "O secretário municipal de Saúde, Dr. Rubem Bottas, solicitou o afastamento, demonstrando seu compromisso com a lisura e transparência nas investigações."

Recurso

Do valor total previsto no contrato, de R$ 11,9 milhões, R$ 5,9 milhões são repasses do governo estadual e R$ 6 milhões municipais. A previsão da Prefeitura era que R$ 4,6 milhões retornassem ao município por meio de compensação do governo federal, dentro do programa Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (Faec).

Continua

O município afirma, ainda, que há estudos para solução das filas de exames, por ser um problema real e que afeta milhares de famílias rio-pretenses. "A prioridade é proteger o interesse público, garantir a correta aplicação dos recursos e assegurar atendimento à população", finaliza a nota da assessoria.

Santa Casa

A reportagem encaminhou pedido, por e-mail, para a Santa Casa de Casa Branca, solicitando posicionamento sobre a anulação do convênio, mas não obteve retorno até a conclusão desta edição.

CPI

O requerimento de CPI para investigar o convênio será lido na sessão desta terça, 5. Apresentado por Renato Pupo (Avante), o documento foi assinado inicialmente por parlamentares de oposição Alexandre Montenegro (PL), Pedro Roberto (Republicanos) e João Paulo Rillo (PT). A adesão de governistas viabilizou a abertura da comissão, que será definida por sorteio. Anderson Branco (PP), que saiu da secretaria de Governo para retornar à Câmara e defender a gestão do Coronel, irá participar do sorteio. Com a ida dele, Marcelo Renato (Novo) deixa o Legislativo.