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PAINEL DE IDEIAS

O xenotransplante que se avizinha

A ciência médica progride a passos longos e, com o dinamismo que lhe é particular, alça voos inimagináveis bem próximos da ficção científica

por Eudes Quintino de Oliveira Júnior
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Eudes Quintino de Oliveira Júnior (Eudes Quintino de Oliveira Júnior)
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Notícia alvissareira e que carrega uma considerável carga de esperança foi a de que pesquisadores brasileiros dominaram a técnica e conseguiram clonar o primeiro porco que será utilizado para a produção de órgãos para humanos. O projeto é do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante, da USP, coordenado pelo professor Silvano Raia.

A ciência médica progride a passos longos e, com o dinamismo que lhe é particular, alça voos inimagináveis bem próximos da ficção científica. O propósito que move tamanha especulação é o de buscar mecanismos, instrumentos e medicamentos para que o ser humano possa encontrar uma qualidade de vida referendada pela boa saúde.

Uma das áreas da medicina que vem se destacando com celeridade é justamente a relacionada com o transplante de órgãos, tecidos e partes do corpo humano. Não só com relação à precisão cirúrgica, como também pela longevidade alcançada.

Com a escassez de órgãos humanos para transplante, os pesquisadores, usufruindo de toda a tecnologia até então conquistada, iniciaram pesquisas envolvendo animais como doadores de órgãos para receptores humanos, em razão da possibilidade da preparação e manipulação prévia dos órgãos para evitar uma possível rejeição após o procedimento.

É o chamado xenotransplante. Não que a notícia cause estranheza — levando-se em consideração a evolução da transplantação, que vai ganhando espaços até então desconhecidos —, mas sim pela exemplar conduta científica e o resultado atingido até o presente.

Animal transgênico é aquele que experimentou mudança em seu patrimônio genético, em consequência da inoculação de um ou vários genes humanos, com a finalidade de compatibilizar a realização de transplantes. Tal prática hoje já é uma realidade no meio científico, principalmente com a utilização de porcos transgênicos, cuja anatomia de órgãos é bem semelhante à dos humanos. Não se trata de criação de quimeras da mitologia grega, representada pela cabeça de leão, corpo de cabra e rabo de serpente, e, sim, de experimentos científicos voltados para proporcionar benefícios de saúde para o ser humano.

A legislação brasileira a respeito da experimentação animal permite a utilização de animais, desde que não sofram dor e que os resultados pretendidos e obtidos tragam ganho à vida e à saúde humana e animal. A lei nº 11.794/2008 estabelece o procedimento para o uso científico dos animais, inclusive, quando for necessária, a morte por meios humanitários, com o mínimo sofrimento físico ou mental, com o rigoroso controle das Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs).

A título de ilustração, no Hospital Geral de Massachusetts, Boston, nos Estados Unidos, no ano de 2024, um paciente com 62 anos de idade, portador de doença renal em estágio terminal, foi submetido a um procedimento e recebeu um rim de porco geneticamente modificado, ofertando, para tanto, seu consentimento em um processo ainda em linha de pesquisa, com riscos e benefícios desconhecidos. O resultado foi celebrado porque não houve a rejeição inicial e o coração só parou de bater dois meses após, sem qualquer indício ou nexo de causalidade com o xenotransplante.

É de se esperar que o estudo anunciado, estribado no melhor embasamento científico e ancorado pelo pensamento bioético, proporcione uma acalentadora esperança para os pacientes que aguardam na fila por um rim.

EUDES QUINTINO DE OLIVEIRA JÚNIOR

Promotor de Justiça aposentado, mestre em Direito Público, pós-doutorado em Ciências da Saúde, advogado e membro da Arlec. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.