Jaques Wagner é alvo de buscas por suspeita de receber propina do Master
Líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner é apontado como "interlocutor relevante" de interesses do Master e teria recebido pagamentos de Vorcaro

O líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foi alvo ontem de busca e apreensão durante a nona fase da Operação Compliance Zero, em mais um desdobramento das investigações sobre o Banco Master. Segundo a Polícia Federal, a ofensiva apura suspeitas de fraudes envolvendo a instituição financeira de Daniel Vorcaro e o PT da Bahia. Esta é a primeira etapa da operação que mira políticos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Wagner negou ilícitos e afirmou que sua relação com Vorcaro é "praticamente zero".
A PF suspeita que o senador - apontado como "interlocutor relevante" de interesses do Master - recebeu pagamentos de propinas de Vorcaro, por meio de apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador e repasses de R$ 3,5 milhões a uma empresa ligada a um familiar. Agentes apreenderam US$ 55 mil e € 33,5 mil em endereços do líder do governo no Senado. Na residência de Wagner, em Brasília, foram encontrados US$ 49 mil. Em outros locais ligados ao parlamentar, na Bahia, outros US$ 6.175 e os € 33,5 mil. Somados e convertidos, os valores chegam a R$ 485 mil
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso Master na Corte, autorizou 18 ordens de busca e apreensão.
FRENTES
Wagner é suspeito de ter usado o mandato parlamentar para atuar em favor do Master em pelo menos três frentes, segundo a PF. A investigação aponta a atuação em propostas para ampliar o crédito consignado, em iniciativas relacionadas ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e no acompanhamento da tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB). Conforme os investigadores, o senador teria tratado das propostas diretamente com o ex-sócio do banco Augusto Ferreira Lima, empresário influente na Bahia, com trânsito entre políticos do PT e da oposição.
A primeira frente, de acordo com a PF, envolveu o crédito consignado, com o objetivo de aumentar a margem de empréstimos descontados em folha para trabalhadores da iniciativa privada, aposentados e pensionistas do INSS. As discussões também incluíram a autorização para que beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de programas federais de transferência de renda passassem a ter acesso a esses empréstimos.
Segundo os investigadores, essa articulação resultou na apresentação de uma emenda posteriormente incorporada à legislação que ampliou o acesso a essa modalidade de crédito. A PF destaca que a pauta tinha ligação direta com os negócios de Lima, responsável por implementar, durante os governos de Wagner na Bahia, um sistema de crédito consignado para servidores públicos que, mais tarde, foi incorporado ao Master. Batizado de Credcesta, o modelo se tornou um dos principais ativos financeiros da instituição de Vorcaro.
PRIVATIZAÇÃO
Em sessão no Senado, em 13 de maio, Wagner defendeu a operação que privatizou a Empresa Baiana de Alimentos e incluiu o repasse, ao Master, do cartão Credcesta. "Tínhamos na Bahia uma excrescência, uma rede de supermercado estatal (...) Então, privatizamos. Quando privatizamos, o cartão Cesta, que era parte dessa rede de supermercado, foi junto. Aí se encerra a participação minha ou do ex-governador (Rui Costa, do PT) nesse episódio", declarou no discurso em que buscou associar o caso Master ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência.
A segunda frente de articulação de Wagner envolveria discussões sobre mudanças no FGC. Segundo a PF, a ampliação da cobertura do fundo, que acabou não se concretizando, era de interesse do Master, que utilizava a garantia do FGC como um dos principais instrumentos para captar recursos no mercado. As investigações já haviam mostrado que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebeu pronta e apresentou emenda no mesmo sentido. O ex-ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro (PL) nega.
‘VOCÊ FAZ PARTE’
Na terceira frente, os investigadores apontam a atuação de Wagner na tentativa de venda do Master ao BRB, operação considerada estratégica para Vorcaro e rejeitada pelo Banco Central. Segundo os investigadores, em março de 2025, Lima falou sobre os termos da transação e escreveu ao senador: "Você, mais do que ninguém, sabe da minha história e faz parte disso!"
Na avaliação da PF, mensagens indicam que o líder do governo Lula no Senado não acompanhava o tema como observador, mas mantinha papel relevante de interlocução. Entre março e setembro de 2025, o BRB tentou adquirir o Master. O Banco Central vetou o negócio e, meses depois, decretou a liquidação extrajudicial da instituição de Vorcaro.
DEPOIMENTO
Augusto Lima também teve endereços vasculhados pela PF, ontem, na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Agentes apreenderam o celular da mulher dele, Flávia Peres, ex-ministra da Secretaria de Governo de Bolsonaro. Ela preside o Instituto Terra Firme, alvo de buscas em Salvador. Lima prestaria depoimento ontem à PF, mas desistiu após ter sido alvo da Compliance Zero.
A defesa de Lima afirmou que as diligências foram "desnecessárias", uma vez que o ex-sócio do Master já estava à disposição das autoridades. "Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública." Lima chegou a ser preso na primeira fase da Compliance Zero, em novembro do ano passado.
IMÓVEL
Conforme a PF, Wagner negociou com Lima, pelo WhatsApp, a aquisição do imóvel de R$ 2,5 milhões na capital baiana. Os investigadores afirmam que diálogos e outros elementos indicaram a existência da transação, que seria uma contrapartida por ações do senador a favor do Master. O prédio onde fica o apartamento está em construção.
Nas conversas no celular de Lima, o senador enviou o contato do gerente do empreendimento com as informações para a aquisição. "A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi", escreveu. Lima compartilhou o contato de advogado vinculado ao Master que viabilizava aquisições de imóveis. A operação foi feita por meio de uma empresa - segundo a PF, isso ocorreu para ocultar o verdadeiro dono do apartamento. Essa empresa recebeu recursos da Reag, gestora de fundos de investimento que tinha conexões com o Master.
Além do imóvel, repasses a familiares do senador estão na mira da PF. A investigação aponta que a BN Financeira, empresa associada à família de Wagner, recebeu R$ 3,5 milhões de companhia vinculada a Lima. Em mensagens, o enteado do senador, Eduardo Sodré, o "Dudu", cobra do ex-sócio do Master pagamentos
Em setembro de 2025, Dudu alertou que havia boletos prestes a vencer. Lima respondeu que a situação estava "crítica" por causa do fracasso da venda do Master ao BRB. Um mês depois, segundo a PF, foi efetuada transferência de R$ 3,5 milhões para a BN por uma empresa ligada ao grupo de Lima. A defesa de Dudu não foi localizada.
AVIÃO E CAMAROTE
Diálogos extraídos no celular de Lima indicam ainda que ele emprestou seu avião particular para Wagner em diversas ocasiões. As conversas também citam pedido do senador de ingressos para o camarote de show nos EUA. A compra custou R$ 63 mil, segundo a PF, e foi feita pela Reag.