Diário da Região
ENTREVISTA

'O Mirassol beneficia toda a região', afirma Edson Ermenegildo

Prefeito de Mirassol e presidente do clube sensação do Brasileirão, ele diz que desempenho beneficia economia e fala sobre obras e política

por Vinícius Marques e Maria Elena Covre
Publicado em 07/01/2026 às 03:34Atualizado há 18 horas
Prefeito de Mirassol, Edson Ermenegildo,sobre ser presidir o clube: “uma função não atrapalha a outra” (Divulgação/Prefeitura de Mirassol)
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Prefeito de Mirassol, Edson Ermenegildo,sobre ser presidir o clube: “uma função não atrapalha a outra” (Divulgação/Prefeitura de Mirassol)
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Há mais de três décadas presidente do Mirassol Futebol Clube e no segundo mandato como mandatário do município, Edson Ermenegildo (PSD) afirmou em entrevista exclusiva ao Diário que o sucesso do time - classificado para a Libertadores deste ano - rende frutos para toda a região.

Ele cita, inclusive, atrativos para Rio Preto, que vão do setor hoteleiro ao de bares e restaurantes. Edson, que é delegado de polícia aposentado, afirmou na entrevista que as obras da terceira faixa da Washington Luís irão reduzir os problemas de fluxo de veículos na rodovia. Ele diz, ainda, que tem projetos avançados de duas avenidas ligando Mirassol e Rio Preto.

Ainda segundo o prefeito-cartola, seu vice, Beto Feres (Republicanos), terá o apoio dele como candidato à prefeitura na eleição de 2028.

Sobre o cenário de disputa presidencial neste ano, Edson Ermenegildo o classifica como "em aberto". Mas adianta que irá apoiar Tarcísio de Freitas (Republicanos) na reeleição para comando do Estado. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Diário da Região – Prefeito, o senhor administra uma cidade e preside um clube de futebol profissional de alto rendimento simultaneamente. Como o senhor responde ao crítico que diz que o Dr. Edson, presidente do Mirassol, tem mais tempo e paixão do que o Dr. Edson prefeito? A cidade não fica em segundo plano quando a bola rola?

Edson Ermenegildo – Evidente que não. Eu já tenho mais que duas funções há muitos anos, há mais de 30 anos. Eu já fui vereador, presidente da Câmara e delegado titular do município. Agora sou prefeito pelo quinto ano e presidente do Mirassol há 31 anos. Então, eu já tenho conhecimento, tenho experiência suficiente para que uma função não atrapalhe a outra. É por isso que eu me cerco de assessores, tanto na prefeitura quanto no Mirassol, com competência para que possam me auxiliar na função principal. E quando a bola rola, isso também não me preocupa, porque eu não tenho acompanhado os jogos do clube fora do Estado. Então, eu não deixo o município mais que um dia sem atendimento. A minha função principal durante os campeonatos, primeiro é atenção com o município, depois com o Mirassol, por ocasião dos jogos realizados fora do Estado.

Diário – O desempenho do Mirassol no Brasileirão colocou a cidade em destaque nacional. Que benefícios o município teve com isso no âmbito do poder público municipal, prefeito?

Ermenegildo – O desempenho do Mirassol Futebol Clube trouxe vários benefícios, não só para Mirassol, bem como para toda a região. Principalmente para São José do Rio Preto, que tem uma rede hoteleira maior e também de gastronomia. E é lógico que a nossa rede, que é menor, também foi muito beneficiada. Eu acho que isto é um fator preponderante para o município. Trazendo mais pessoas de fora, visitando a cidade de Mirassol, é lógico que você conta com mais recursos financeiros. O pessoal que vem de fora acaba utilizando os nossos serviços e traz mais riquezas para Mirassol. Não só para Mirassol. Eu entendo, inclusive, que nós fazemos parte de uma Região Metropolitana e eu tenho a consciência de que o Mirassol Futebol Clube hoje é um time que agradou ao torcedor de vários municípios. Movimenta a economia de Mirassol e da região toda, principalmente em São José do Rio Preto.

Diário – Prefeito, em 2025 foi inaugurado, enfim, o Hospital Regional São Pedro. Uma das metas com o hospital é reduzir a dependência da região para atendimentos médicos. A Prefeitura de Mirassol está preparada para o ônus dessa responsabilidade?

Ermenegildo – A participação do município com a implantação desse Hospital Regional São Pedro foi quanto à doação da área do terreno para a edificação do hospital. Isso só foi possível devido ao trabalho político meu e de outros políticos da região, ainda no final da gestão de Rodrigo Garcia. Depois, a ideia foi comprada pelo Tarcísio de Freitas, com apoio irrestrito do nosso secretário estadual de Saúde, doutor Eleuses Paiva. Então, o hospital hoje funciona em forma de convênio entre o Lar São Francisco de Assis e o governo do Estado de São Paulo, através da sua Secretaria da Saúde. Nós não temos nenhuma responsabilidade financeira quanto ao funcionamento do hospital.

Diário – Mirassol é uma das poucas cidades da região com a gestão plena da saúde. Na prática, o que isso trouxe de avanço para a população na área da saúde?

Ermenegildo – Essa assunção de gestão plena da saúde por Mirassol ocorreu há mais de 10 anos, não foi uma decisão da nossa gestão. Acho que trouxe maior ônus de recursos financeiros para o próprio município. Porque o que é repassado pelo SUS não é suficiente para manter a gestão plena. Tanto é que é obrigatório investir 15% em saúde, e nós gastamos quase 30% do nosso orçamento para manter toda a estrutura de saúde de Mirassol. Então, foi um ônus criado ao município, não sei por que motivo foi tomada essa decisão na época, que era um ônus totalmente da União e do Estado, que foi assumido também pelo município, na questão da gestão plena. Os recursos repassados pelo Estado e pela União não são suficientes, principalmente pela União, que deixa a desejar nesse sentido.

Diário – Historicamente, Mirassol é tratada como um “quintal” de Rio Preto. Com o boom dos condomínios de luxo no município, a cidade importou parte da elite econômica vizinha. A sua gestão preparou a cidade para deixar de ser satélite e virar protagonista?

Ermenegildo – Não podemos dizer que Mirassol vai ser um protagonista da Região Metropolitana. Evidente que a proximidade com Rio Preto facilita muito a vida dos mirassolenses. Hoje nós temos pessoas que moram em Rio Preto e trabalham em Mirassol, e vice-versa. Então, nossa visão hoje é de Região Metropolitana. Não só Rio Preto, não só Mirassol, mas também Bady Bassitt e tantas outras cidades que integram a nossa Região Metropolitana.

Diário – Prefeito, o trajeto de Mirassol a Rio Preto nos horários de pico é um calvário para o trabalhador, o que tem sido agravado um pouco pelas obras da terceira faixa. O senhor acredita que, uma vez concluída essa obra, a situação vai se resolver de vez? O senhor tem conversado ou pressionado o governo estadual para avançar essas obras?

Ermenegildo – Isso foi uma conquista feita não só por Mirassol, como por toda a região, através da assunção da nova concessão da Econoroeste. E não é só pelo movimento entre Mirassol e São José do Rio Preto. Nós não podemos esquecer que é a rodovia Washington Luís recebe outras duas rodovias estaduais muito importantes do Estado: a Euclides da Cunha e a Feliciano Sales Cunha. Então, tem um trânsito intenso do pessoal que vem, inclusive, de outros Estados e acaba desembocando no início da Washington Luís. Acho que, com a construção da terceira faixa, evidentemente o problema vai ser amainado, diminuído, mas não vai resolver de fato, principalmente pelo crescimento da frota de veículos e caminhões, não só no Estado de São Paulo, como no Brasil todo. Nós temos outras alternativas para diminuir o trânsito entre Rio Preto e Mirassol, com a construção de duas avenidas ligando a nossa zona norte com a zona norte de Rio Preto, que vai também auxiliar bastante na diminuição do tráfego de veículos na Washington Luís.

Diário – Duas avenidas?

Ermenegildo – Está bem adiantada essa iniciativa. A gente acredita que grande parte desse trânsito ligando Mirassol a Rio Preto vai ser feito através dessas duas avenidas. E temos também um projeto fazendo uma ligação, uma nova vicinal, ligando a divisa de Mirassol com Bady Bassitt e Rio Preto. Também vai ajudar bastante nessa questão do trânsito. Estamos em tratativas com a Prefeitura de Rio Preto. As obras serão feitas em conjunto com os empresários imobiliários que estão investindo na nossa cidade.

Diário – A concessão de água e esgoto (Sanessol) é, há anos, a maior reclamação do mirassolense devido às tarifas. O senhor, como poder concedente, está satisfeito com o preço cobrado do seu munícipe?

Ermenegildo – Eu acho que o valor é um pouco exagerado, mas, comparado com outros municípios que têm concessão, está dentro do padrão de preço. Todo ano a gente discute com a concessionária a possibilidade de ter um aumento menor. Não conseguimos diminuir o valor porque tem que obedecer ao contrato que foi feito há 17 anos entre o município de Mirassol e a empresa que ganhou a concessão à época. Mas eu posso lhe dizer que o serviço está sendo muito bem prestado. Nós não temos reclamações recorrentes de falta de água. Nós temos a cidade praticamente 100% atendida na questão de esgoto, o que é uma coisa rara entre outros municípios, principalmente no Brasil afora.

Ermenegildo – O senhor é um político experiente e centralizador. O temor de muitos grupos políticos fortes é que, quando o líder sai, não há sucessor preparado. O senhor já escolheu quem será o “novo Dr. Edson” para 2028?

Ermenegildo – Bom, primeiro eu tenho que concordar que eu sou um político experiente. Estou na vida pública tanto como delegado de polícia, como vereador, presidente da Câmara e agora como prefeito há muitos anos. Eu não sou centralizador. Eu sempre dividi as funções dentro daquilo que eu administro. Isso tanto na polícia quanto no Mirassol Futebol Clube e também agora na prefeitura. Tanto é que nós criamos três secretarias, dando maior autonomia aos meus secretários para cuidar tanto da parte operacional quanto da autonomia na questão financeira. Eu confio muito nas pessoas que eu escolho para me assessorar e não me considero um político centralizador. Agora, 2028 está um pouco distante ainda. Eu acho que não é o momento oportuno para fazer qualquer tipo de avaliação a esse respeito. A política é muito dinâmica e espero que Deus me dê saúde para que até lá a gente possa coordenar essa transição de governo.

Diário – O senhor teme que a disputa pela sucessão entre nomes que gravitam seu governo, caso do seu vice, Beto Feres (Republicanos), e do seu chefe de Gabinete, Renato Scochi, possa comprometer o desempenho do último ano do governo do senhor?

Ermenegildo – Bem, eu acho que é uma avaliação muito precoce para ser feita. Primeiro que quem deseja ser candidato ainda não tem certeza de que o será. Eu tenho um compromisso político com o meu vice, que é o Beto Feres, que hoje seria o candidato indicado para a minha sucessão. Isso porque nós fizemos um plano de governo para Mirassol para 20 anos. Nós estamos no quinto ano. Estamos esquecendo, inclusive, que nos primeiros anos nós tivemos uma pandemia que impedia qualquer tipo de investimento em infraestrutura ou em qualquer outra área de interesse da população. Então, nós estamos no terceiro ano efetivo quanto a investimentos. Mas o meu compromisso político hoje é com o meu vice, Beto Feres. Agora, isso vai ser analisado, evidentemente, daqui a dois anos, dependendo também da disposição dele e do nosso grupo político, mas eu tenho esse nome como definido.

Diário – Mirassol é uma cidade conservadora. Para 2026, como o senhor vai se posicionar? O senhor seguirá a orientação automática do seu partido ou terá liberdade para apoiar candidatos que tragam recursos reais para a cidade, mesmo que sejam de centro? O seu palanque em 2026 é ideológico ou pragmático?

Ermenegildo – Eu me coloco como um político de centro. Tem boas ideias da esquerda que eu compro e também boas ideias da direita. Não sou extremista, nem de esquerda nem de direita. Evidentemente, como prefeito, a gente recebeu auxílios e apoio político, principalmente na destinação de emendas de vários deputados estaduais e federais. Então, nós não podemos virar as costas ou deixar de reconhecer o auxílio que nós tivemos durante esses anos todos. Isso na questão do Legislativo. Na questão do Executivo, como eu sou um homem de centro, a tendência é que a gente apoie aqui em São Paulo Tarcísio para o governo. Para a Presidência da República, acho que está muito prematuro qualquer tipo de avaliação. Tenho definido apoio ao Tarcísio como governador à reeleição. Agora, na questão federal, eu acho que é muito prematuro a gente fazer uma análise porque o quadro ainda está muito conturbado.

Ermenegildo – O senhor acha o senador Flávio Bolsonaro forte candidato para a Presidência?

Ermenegildo – Sim. A marca Bolsonaro é muito forte na política do Brasil, como é Tarcísio de Freitas no Estado de São Paulo. Tem outros nomes muito importantes também. Mas, hoje, sim. O nome do Lula também. O nome do Lula, não podemos deixar de reconhecer, politicamente é um nome muito forte.

Ermenegildo – O setor moveleiro é o coração da cidade, mas sofre com as oscilações da economia nacional. Sua gestão trabalhou para diversificar a economia de Mirassol ou, se a indústria de móveis espirrar, a prefeitura pega uma pneumonia fiscal?

Ermenegildo – Hoje o município não é mais dependente nem da indústria moveleira nem da indústria metalúrgica, que também foi muito forte e ainda é muito presente. 70% da nossa economia aqui vem do setor terciário. São serviços e comércio. Essa dependência não existe mais. Então, isso já está bastante diversificado em Mirassol.

Diário – Mirassol está ganhando loteamentos numa velocidade imensa. Vemos também prédios subindo onde antes eram casas. A infraestrutura de água, esgoto e trânsito dentro da cidade está dimensionada para esse adensamento populacional?

Ermenegildo – Todo novo empreendimento tem uma análise técnica, tanto da Secretaria de Trânsito quanto da própria Sanessol, a concessionária, na questão de esgoto e água, e de todas as outras secretarias envolvidas na aprovação dos projetos. Isso não fica centralizado em uma secretaria. É uma decisão colegiada e, ao final, passa por mim, evidentemente. Mas tudo que está sendo feito está sendo bastante estudado, com muita cautela, para que não ocorra prejuízo no futuro. Nós ficamos muito contentes com esse investimento, com os condomínios. Trouxemos muitas pessoas que passam a gastar também no nosso comércio. E também no centro da cidade, com o crescimento do setor terciário, comércio e prestação de serviços. Construindo prédios novos e galerias novas, modernas, para instalação de novos postos de serviço.

Diário – Daqui a 20 anos, quando contarem a história de Mirassol, o senhor prefere ser lembrado como “o prefeito que saneou as contas e fez obras” ou como “o presidente que levou o Mirassol para a elite do futebol”?

Ermenegildo – Como eu não misturo as duas funções, eu trato com muita diferença a minha função de prefeito e a minha função de presidente do Mirassol, que exerço há 31 anos. Eu acredito que eu deva ser lembrado pelas duas funções que eu exerci no município. Espero que haja sempre um reconhecimento, porque a nossa dedicação é integral. Nunca deixamos de fazer alguma coisa pelo Mirassol por eu ser prefeito, nem deixei de fazer como prefeito por ser presidente do clube. Faz mais de três décadas que eu atuo em duas funções, sempre acumulando funções na nossa comunidade.

Diário – Como o senhor vê essa ação dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura e prisão de Nicolás Maduro, e as declarações do Donald Trump de que o país vai cuidar do petróleo venezuelano?

Ermenegildo – A gente vê que a realidade da Venezuela há alguns anos é muito decadente. Tanto é que a gente encontra muitas famílias venezuelanas nos nossos cruzamentos, nos nossos semáforos, pedindo esmola. Isso é muito triste, além do acolhimento que a gente tem que dar também na questão do setor da saúde e da educação. Sempre recebemos muito bem os nossos imigrantes. Eu vejo essa atuação dos Estados Unidos como uma intervenção policial, não militar. Todo mundo sabe que a eleição desse presidente, que agora está preso nos Estados Unidos, não foi reconhecida como legítima, inclusive pelo Brasil. Mas eu vejo mais como uma intervenção policial dos Estados Unidos na Venezuela, capturando uma pessoa que vai responder por crimes praticados em nível internacional.

Diário – Qual a promessa de campanha que o senhor considera mais difícil de cumprir integralmente?

Ermenegildo – A preocupação de qualquer administrador sempre vai ser a questão da saúde e a questão da educação. São os setores que mais demandam recursos por parte de qualquer município. Eu acredito que vai ser uma luta que vai continuar sempre, independentemente de quem for o gestor no futuro. Será sempre uma preocupação do gestor responsável.