Diário da Região
IPTU

'Lei federal não aumenta IPTU', afirma coordenadora da Comissão de Direitos Tributários da OAB de Rio Preto

Advogada rebateu as declarações recentes do prefeito de Rio Preto, Coronel Fábio Candido, sobre o IPTU

por Vinícius Marques
Publicado há 9 horasAtualizado há 3 horas
Ana Vitória Mortati de Araújo, da OAB de Rio Preto (Divulgação/OAB)
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Ana Vitória Mortati de Araújo, da OAB de Rio Preto (Divulgação/OAB)
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As declarações do prefeito de Rio Preto, Coronel Fábio Candido (PL), de que lei federal impacta o IPTU da cidade foram rebatidas por especialista em direito tributário e também por promotor consultados pela reportagem.

Desde quarta-feira, 28, o Coronel tem afirmado em entrevistas e postado em redes sociais que a lei complementar nº 214 do governo federal, a Reforma Tributária, resultaria em “aumento abusivo” no imposto cobrado pelo município. A declaração foi dada em meio à polêmica da nova Planta Genérica de Valores (PGV) que entrou em vigor neste ano. O projeto, de autoria do prefeito, foi aprovado na Câmara em setembro. O IPTU irá subir até o limite de 20% neste ano.

O Coronel Fábio cita que a regra federal teria impacto direto no imposto. Também disse, em vídeo divulgado nas redes sociais, que a planta genérica não tinha atualização de valores há 12 anos e que, por “exigência” da lei federal e do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, “fomos obrigados a atualizar o valor venal dos imóveis”, afirmou. Citou, ainda, que a lei federal exige cadastro imobiliário dos municípios.

Para a coordenadora da Comissão de Direito Tributário da OAB Rio Preto, Ana Vitória Mortati de Araújo, “a frase de que o governo federal aumentou o IPTU de Rio Preto não tem sentido”. “Se tivesse, não teria alterado o valor venal, inclusive, de forma ilegal, acima do valor de mercado”, afirmou. A advogada também fez uma postagem nas redes sociais sobre o assunto.

“Vale dizer que o art. 18 da CF (Constituição Federal) diz que ‘a organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição’.”

“Se o legislador constitucional dá a competência para o Município criar o IPTU, não cabe a nenhum outro ente falar nada, obrigando a instituir ou a cobrar”, complementou.

Para a especialista, a Reforma Tributária cria dois “novos impostos”, o IBS (substituindo o ICMS/ISS) e a CBS (substituindo o PIS e a Cofins), e não mexe no IPTU.

“A Reforma não cria o CIB (Cadastro Imobiliário Brasileiro), que existe desde 2021, nem permite ao prefeito colocar culpa no CIB para rever/aumentar o valor venal, impactando todo mundo indiscriminadamente. O CIB serve exclusivamente para unificar e integrar os dados dos imóveis, que hoje estão espalhados pela prefeitura, cartórios e Receita. E impactará as pessoas que estão com uma informação errada do imóvel”, afirma Ana Vitória.

O promotor Sérgio Clementino também seguiu na mesma linha. “A fixação do valor venal e do valor do IPTU é uma atribuição de competência do município. O município tem independência para fazer isso”, disse.

Governo federal

Nota divulgada pelo Ministério da Fazenda em setembro do ano passado, mesmo mês em que o projeto do prefeito foi aprovado na Câmara de Rio Preto, afirma que o “IPTU é um tributo municipal, que somente pode ser majorado nos termos da lei de cada município”. A reportagem pediu posicionamento do ministério sobre a declaração do prefeito e aguarda retorno.

No Tribunal

Na quinta-feira, 29, a direção do PT de Rio Preto encaminhou representação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) pedindo apuração sobre as divulgações da Prefeitura com relação ao impacto da lei federal no imposto municipal. “Quando o cidadão recebe o carnê mais caro no fim do mês, ele tem o direito de saber quem decidiu, como decidiu e por que decidiu”, disse o presidente do partido, Carlos Alexandre, em nota divulgada à imprensa.

Prefeitura

A reportagem solicitou à assessoria da Prefeitura na quinta, 30, posicionamento sobre a interferência da lei federal na norma de IPTU, definida por lei municipal, e aguarda retorno.

Carnês

Os carnês de IPTU começaram a ser distribuídos nesta semana. A Prefeitura formou uma comissão para quem contestar o valor apresentar requerimento. A comissão também irá analisar queixas sobre a nova PGV.

Planta genérica

Desde o início do ano, vereadores até da base do prefeito têm procurado o Executivo com queixas sobre a nova PGV. Há reclamações, por exemplo, de que a nova planta também tem reflexo em serviços cobrados em cartórios de registro de imóveis, quando estes utilizam o valor venal para cobranças. Há queixas de imóveis que ficaram com valor venal acima do valor de mercado para venda.