SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 16 DE OUTUBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Terra dos homens

Em comboios de ontem ou nos brasis de agora, corpos se exaurem confiscados do ser e da alma. E vidas secas vagam pelas avenidas e se deitam em camas de trapos sob marquises dos prédios

Romildo Sant’Anna
Publicado em 18/09/2021 às 20:58Atualizado em 18/09/2021 às 20:59

Lembro-me da cena final do romance ‘Terra dos Homens’ (1939), de Saint-Exupéry. Europa, tempo de guerra, madrugada, miséria. O narrador espia o interior dum vagão apinhado de gente. São camponeses sonolentos, roupas puídas, corpos cansados e feições marcadas pela friagem que lateja. Entrevê uma mulher espremida nos solavancos do trem em movimento; abraça um bebê de rosto delicado. Em devaneio, o contador de histórias supõe que todos os recém-nascidos se pareceriam com Mozart quando bebê. Mas o torno da vida se incumbe de desfigurá-los. E crescem crianças diferentes do prodigioso músico austríaco. Serão silenciosos carvoeiros, colhedores de batatas, compleições soturnas, ali, naquele trem.

Na geopolítica da fome brasileira a gerar ‘Vidas Secas’ (1938) respiram os filhos de Sinhá Vitória e o vaqueiro Fabiano. Esquálidos, são o “menino mais novo” e o “menino mais velho”. De déu em déu pela caatinga estorricada, sequer têm nomes. A máxima aspiração da mãe é ter uma cama de verdade e livrar-se das noites em estrados de varas amparados por forquilhas. Ah, “miséria é miséria em qualquer canto, / riquezas são diferentes”, fala a letra cantada pelos Titãs. “Índio, mulato, preto, branco, / miséria é miséria em qualquer canto”, diz o refrão.

Em ‘Abril Despedaçado’ (2001), filme de Walter Salles Jr., o filho dum fabricante de rapaduras também não tem nome. Atende por “menino”, depois apelidado Pacu pela moça que engole fogo no circo mambembe. O garoto ingênuo até que gosta do apelido, mas tem medo. “Pacu é peixe de rio, e quando o sertão virar mar?” – pergunta-se, desentendido. Numa canção, Chico Buarque esculpiu as palavras dum pai de outro filho inominado: “Quando, seu moço, nasceu meu rebento, / não era o momento de ele rebentar, / já foi nascendo com cara de fome, / e eu não tinha nem nome pra lhe dar. (...) Olha aí, o meu guri, olha aí! / Olha aí, é o meu guri...”. E no conto ‘O Jeito’ (1982), de Dinorath do Valle, um pai sepulta seu filho no quintal: “Tinha só cinco meses, era miudinho... Se conseguisse o registro, ia ter que arrumar o óbito”. Existiu em parede-meia com o mundo oficial, imponente. No anonimato da pobreza, não faz parte das tabelas estatísticas.

Em comboios de ontem ou nos brasis de agora, corpos se exaurem confiscados do ser e da alma. E vidas secas vagam pelas avenidas e se deitam em camas de trapos sob marquises dos prédios. À parte isso, na vida de cá, opulenta e engajada, organizam-se festejos em louvor a políticos infames. Rodas de aço rangem a imitarem gritos que ecoam metáforas em filmes, partituras, poesias, pinturas... Evocam o trem dos desvalidos e nos fazem lembrar de que miséria é miséria em todos os cantos, nos dias e noites sem fim. Fustigam a consciência sobre os trôpegos, a fauna humana trancada em vagões invisíveis, nesta terra só de homens.

ROMILDO SANT'ANNA

Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingo

 
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