SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Sextou!

Fique preso até o perigo passar é o tipo da recomendação que virou chiclete, é a cara deste e do último verão. Quando você acha que a vida está voltando ao normal, aparece uma variante que contamina mais do que mau humor

Elma Eneida Bassan Mendes
Publicado em 21/01/2022 às 23:21Atualizado em 21/01/2022 às 23:51
Elma Eneida Bassan Mendes

Elma Eneida Bassan Mendes

- Mãe, “sextou” e você precisa relaxar! Vamos sair com a gente. Vamos cedo, lá pelas sete da noite. Comer, beber, jogar conversa fora e você se distrai um pouco.Topa?

- Mas e a Ômicron? Ela vai também? Não é perigoso?

- Sossega mãe. Vamos ficar na área ao ar livre do restaurante, mesas com distanciamento.

Convite bom é convite de filho. Tem sentimento. Mesmo cismada com a parente pegajosa do coronavírus, disse sim. Semana puxada, cabeça cansada, temor e tensão no ar, e a correria de sempre, de todos nós. Eu e talvez o restante da humanidade estamos mais ou menos assim. Uns mais, outros menos. Com a peste que insiste, resiste. Mundo atônito, Brasil meio sem rumo, não há quem esteja completamente livre de males, leve de agonias ou solto das amarras de quantas ameaças. Assim, o tal sextou é um bom escape. Há esperança pelo menos nos minutos que se seguirão. Dos bons momentos na noite que anuncia a fina flor do sábado. Programa absolutamente familiar. Gostoso. Nada poderia dar errado na companhia do filho, nora e netinho. Nada mais do que isso. E muito menos do que imaginou um divertido Nelson Rodrigues: “sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica”. Enfim, lá fomos nós!

Mas quem disse que a gente tem sossego nessa vida? Tudo ia bem. Bebida boa, comida delícia, conversa animada e alegre no espaço externo de um restaurante de um shopping da cidade. Mas a paz não deu nem pro começo. Logo um estouro de pânico. Pelo pavor das pessoas em fuga pensei se tratar de uma gangue de Ômicron em arrastão dentro shopping! Mas não! Era um assalto e daí pra frente o leitor, bem informado que é, já sabe da história. Queria pegar o neto e me enfiar debaixo da mesa. Queria saber o que eu fui fazer ali. Queria ir dar uns tapas nos bandidos. Isso é coisa que se faça? Pôr em risco nossas vidas? Querem um relógio, uma joia? Vão trabalhar! Não é o que todos nós fazemos? Enquanto tolas ideias me passavam pela mente, assustada, só consegui obedecer às instruções da polícia. A ordem era que aguardássemos dentro do restaurante, presos, até o momento de sair em segurança.

Fique preso até o perigo passar é o tipo da recomendação que virou chiclete, é a cara deste e do último verão. Quando você acha que a vida está voltando ao normal, aparece uma variante que contamina mais do que mau humor. Quando você finalmente sai para “sextar”, da escuridão dos malfeitos surge um bando de criminosos para atazanar. Um nó bem dado no meio do meu sossego, do sossego de uma cidade inteira. Fato é que sossego é artigo de luxo disputadíssimo hoje. Não está em lugar algum, menos ainda numa singela sexta-feira. O meu último “sextou” me lembrou a cronista Tati Bernardi: “hoje é um daqueles dias que, enquanto eu não me arrepender, eu não sossego.”

Elma Eneida Bassan Mendes, Jornalista, escritora e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.

 
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