Que viva Dom Quixote!
Não é excessivo lembrar que o livro de Cervantes infundiu matrizes do romance moderno. Influenciou prosaístas universais como Charles Dickens, Dostoiévski, Borges, Machado de Assis

Há muito era aguardada a reimpressão de ‘Dom Quixote’ na tradução de Almir de Andrade e Milton Amado, publicada decênios atrás em cinco “livros de bolso” pela Ediouro. Na comemoração dos 400 anos, saíram em português traduções como a de Ernani Ssó, em dois requintados volumes, pela Companhia das Letras. Valeu a espera. Chega pela Editora Nova Fronteira a bela tradução de A. Andrade e M. Amado, em texto integral de 1.245 páginas, em consonância com a Real Academia Espanhola. Vem em caixa com dois tomos ilustrados e um livreto de famosas gravuras do artista Gustave Doré.
Não é excessivo lembrar que o livro de Cervantes infundiu matrizes do romance moderno. Influenciou prosaístas universais como Charles Dickens, Dostoiévski, Borges, Machado de Assis. Em 2002, sob a chancela do Instituto Prêmio Nobel, escritores ao redor do mundo o elegeram como a mais engenhosa criação ficcional de todos os tempos. Foi adaptado a cinematografias, teatros, músicas eruditas e populares, balés, expressões pictóricas, poemas e reduções escriturais como o nosso ‘Dom Quixote das Crianças’, de Monteiro Lobato. Desde 1605, quando se editou a primeira parte, os significados das venturas e desventuras do personagem seguem inexauríveis, a seduzirem povos de eras barrocas até hoje.
Não teríamos tempo vital para ler o que os estudiosos publicaram sobre ‘El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha’ nos aspectos formais, filosóficos, prospecção dos anseios e evocações humanas. É o livro nascido dos livros, ficção das ficções e o enunciado mais agudo de que ‘A Vida é Sonho’, na sensibilidade teatral do coetâneo Calderón de la Barca. Cada passo dessa saga anti-heroica é magnânimo, inspirador e enlevado. Pelos capítulos, a nitidez dum ser angélico e fantasioso posto a socorrer injustiçados e carentes. O prólogo irônico de Miguel de Cervantes já é o pórtico artificioso a descerrar cortinas dos intuitos humildes, resolutos e sublimes do Cavaleiro da Triste Figura.
Escreveu: “Podes crer-me, desocupado leitor, que eu quisera fosse meu livro, como filho que é do entendimento, o mais formoso, galhardo e discreto que se possa imaginar. Mas foi-me impossível contrariar a ordem da natureza em que cada coisa engendra o seu semelhante”. Sendo uma história nascida no cárcere e concebida por pessoa cheia de defeitos, diz que um pai pode ter o filho sem graça, mas o amor lhe venda os olhos e enxerga falhas como virtudes. Então, roga ao leitor que, embora seu livro seja enxuto e sensabor, o tenha como gracioso, à semelhança do pai que adora o filho sonso e desconjuntado. Pensou em não o publicar - fala no prefácio. Mas o fez para não se contrapor à “ordem da natureza” que nos ensina a amparar o destino de todos os viventes, sábios, leigos, ricos, pobres, sem distinção de origem, raça, gêneros, idades e suas razões. Vale.
ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingo