SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 22 DE OUTUBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Pareidolias

A habilidade para detectar expressões emocionais é fundamental para as tomadas de decisões. Saber se uma pessoa está alegre ou triste, satisfeita ou com raiva, possibilita antecipar suas intenções e programar as ações a serem executadas

Mara Lúcia Madureira
Publicado em 13/10/2021 às 19:21Atualizado em 13/10/2021 às 19:23
Mara Lúcia Madureira

Mara Lúcia Madureira

A mente humana é uma usina de produções fantásticas, e uma das suas atividades é atribuir significados às percepções. Desde a infância, o ser humano identifica rostos e formas familiares em nuvens, eletrodomésticos, vidraças, rachaduras, formações rochosas, manchas, alimentos e em muitos outros objetos e contextos. Além de perceber “carinhas” e formas, o cérebro atribui-lhes sentimentos. Há, também, os que interpretam sons aleatórios como mensagens, com algum significado.

Tal fenômeno recebe o nome de pareidolia, um tipo de apofenia, isto é, uma função primitiva e inconsciente, que reconhece significados e padrões em coisas aleatórias, sem nenhum sentido ou conexão com a realidade. A interpretação apressada de dados incompletos, eventos vagos ou coincidências produz conclusões erradas. No entanto, perceber rapidamente rostos e formas camuflados entre a vegetação, em rios, no solo ou rochedos, aumenta as chances de êxito, no caso de ataques predatórios e representa uma vantagem evolutiva.

A habilidade para detectar expressões emocionais é fundamental para as tomadas de decisões. Saber se uma pessoa está alegre ou triste, satisfeita ou com raiva, possibilita antecipar suas intenções e programar as ações a serem executadas. Mas esse não é um procedimento exato. Confiar apenas nos sentimentos e julgamentos subjetivos sempre envolve erros. As respostas emocionais contêm paixão, ódio, medo, raiva, alegria, tristeza, sentimentos que interferem no julgamento e afetam as escolhas, nem sempre focadas em benefícios ou amparadas por motivações racionais e éticas. As emoções formulam histórias muito rápidas, muitas vezes inconsistentes com a razão.

A cognição não é uma máquina pensadora lógica e “resolvedora” racional de problemas. Antes, produz fantasias, sentimentos e projeções de experiências nem sempre exequíveis na realidade. Muitas decisões são motivadas por estados emocionais, sem qualquer relação com as demandas reais. O conflito entre as idealizações emocionais e os eventos concretos é fonte de novas emoções desagradáveis. Desse modo, é necessário um grande investimento de tempo e esforços conscientes para compreender as ações e omissões das pessoas e reduzir as chances de frustrações futuras.

A pareidolia é, também, responsável por encontrar significados para eventos desconhecidos e, associada à urgência na resolução de problemas, permanente busca de prazer e evitação da dor, possibilita o surgimento de superstições, ilusões, e os mitos. Desse modo, forma-se uma linha tênue entre mecanismo de sobrevivência, criatividade e delírio.

MARA LÚCIA MADUREIRA, Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras

 
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