SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 05 DE JULHO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

O segredo do Raimundinho

Ele foi considerado um dos melhores goleiros do interior nos anos 1960 e chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira de Novos. Apesar de operar verdadeiros milagres debaixo dos três paus, Raimundinho não media mais que 1,75 m de altura, muito pouco para um goleiro

José Luís Rey
Publicado em 21/05/2022 às 16:17Atualizado em 21/05/2022 às 16:35
José Luís Rey (Reprodução)

José Luís Rey (Reprodução)

Há algum tempo, parecia haver menos goleiros negros do que hoje no futebol brasileiro. Já ouvi quem acenasse com uma explicação socioeconômica para o fenômeno, lembrando que o goleiro, entre todas as posições no campo de jogo, é o único que requer equipamentos especiais, sempre muito caros e fora do alcance da molecada mais pobre, onde era fácil perceber a maioria de garotos negros.

Não sei se é verdade, acho que não. É que jogar no gol era coisa para quem não tinha o talento, a ginga e o domínio que eles tinham da bola – atributos que lhes valiam sempre um lugar na “linha”.

Também não falta quem associe o fato ao preconceito que se seguiu à tragédia do goleiro Barbosa na final da Copa de 1950, no Maracanã. O fato é que, entre Barbosa e Dida, o Brasil nunca teve um goleiro negro nas muitas finais de Copas do Mundo que disputou de 1950 a 2018. E mesmo hoje, quando é fácil lembrar de goleiros notáveis – vá lá, Felipe, Helton, Gomes, Edson Bastos – ainda é possível notar que apenas três ou quatro equipes da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro escalam goleiros não brancos como titulares.

Atribui-se ao ex-presidente do América de Rio Preto, Benedito Teixeira, uma declarada falta de confiança em goleiros negros. Coincidência ou não, ao longo de sua história, o América praticamente só teve goleiros brancos – uma das poucas exceções foi o grande Mané Mesquita, que na maior parte do tempo atuou na reserva do titular Reis, até ser emprestado ao Bangu, do Rio de Janeiro, onde se tornou campeão carioca de 1966, como reserva de Ubirajara.

Eu sembre me recordo de outro goleiro negro de passagem destacada pelo futebol da região: Raimundinho, revelado pela Votuporanguense e com importantes temporadas pelo Rio Preto, entre muitas outras equipes. Ele foi considerado um dos melhores goleiros do interior nos anos 1960 e chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira de Novos. Apesar de operar verdadeiros milagres debaixo dos três paus, Raimundinho não media mais que 1,75 metro de altura, muito pouco para um goleiro.

O radialista e memorialista votuporanguense Fauzi Kanso, já falecido, me contou certa vez, que, mesmo assim, o goleiro foi convidado por João Avelino, o “71”, que treinava o Clube do Remo, de Belém do Pará. O treinador chegou a mostrar preocupação com as repercussões da contratação de um goleiro baixinho, mas, durante sua passagem por lá, Raimundinho fechou o gol, o Remo foi campeão e ele acabou ganhando o troféu de melhor jogador do torneio.

Melhor ainda, durante todo o tempo, nem jornalistas, nem torcedores, nem adversários se deram conta da inconveniente estatura do jogador. Só mesmo quando concluiu seu trabalho no norte e voltou para São Paulo, Avelino revelou o segredo de Raimundinho.

Assim que o contratou, recorreu a um serralheiro de confiança para executar um trabalho especial: diminuir em 10 centímetros a altura das traves do campo onde o Remo mandava os seus jogos.

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos

 
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