PAINEL DE IDEIAS

O mito de Tântalo

Tântalo não se tornou deus e nenhum deus se tornou humano como ele. Em vez disso, foi condenado ao Tártaro, lugar mais profundo e sombrio do submundo

por Mara Lúcia Madureira
Publicado em 22/11/2023 às 20:35Atualizado em 22/11/2023 às 20:46
Mara Lúcia Madureira (Divulgação)
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A busca da perfeição e da santidade são constantes aspirações humanas. Desde a antiguidade, mortais perseguem a ideia de ser deus, ter poder e domínio, alcançar altos graus de respeitabilidade e admiração. Estar no Olimpo, no Paraíso, no poder político, religioso, ou exercer qualquer forma de controle de outras pessoas é um deleite. E claro, sem ter de renunciar aos prazeres terrenos e carnais.

O privilégio só é privilégio porque representa vantagem para um ou para poucos. Ficar de fora do grande banquete, pode provocar inveja, cobiça, compulsões, competições e perversões. Até aqui, nada de novo sob o sol.

A vaidade é fruto (ou semente?) do desejo de ser percebido como superior. Tal necessidade é um meio de se dissimular a crença de inferioridade, inculcada no sujeito por influência familiar, social e cultural. Toda a luta existencial será um permanente esforço para afugentar o fantasma da rejeição, mesmo quando se tem aprovação.

No mito grego, Tântalo, o rei da Frígia, era filho de Zeus e de princesa Plota, e pai de Níobe e Pélope. Era próspero e abençoado, o mortal predileto dos deuses e o único convidado a participar das refeições no Olimpo. Convencido de seu privilégio, Tântalo tenta igualar-se aos deuses. Convida-os para um banquete em seu palácio e, para testar a onisciência divina, rouba-lhes o néctar e a ambrosia, que lhes garantiam a imortalidade, e serve aos deuses, a carne de seu próprio filho, Pélope.

Todos perceberam o crime, exceto Deméter, deusa da agricultura que, distraidamente, prova uma porção do ombro de Pélope. Era preciso fazer justiça. Zeus devolveu a vida ao rapaz e substitui seu ombro comido por outro, de mármore. Tântalo não se tornou deus e nenhum deus se tornou humano como ele. Em vez disso, foi condenado ao Tártaro, lugar mais profundo e sombrio do submundo, onde tentava beber e a água desaparecia, tentava apanhar os frutos e os galhos se afastavam. O suplício de Tântalo foi conviver com a sede e a fome, tendo os suprimentos tão próximos e inalcançáveis.

A vida de Pélope foi poupada, mas todos os descendentes de Tântalo foram amaldiçoados e tiveram um trágico destino. A eterna insatisfação os levou a lutar uns contra os outros, geração após geração e intergerações, por poder, entre traição, corrupção, assassinato e canibalismo.

Encher-se do outro, devorar a própria espécie, não diviniza e não muda o estatuto de nenhum mortal. A vaidade não é, por si, prejudicial, mas pode influenciar a relações interpessoais para o bem ou para o caos. Ao exceder o limite do realizável, o desespero e a solidão estão à espreita.

Acredita-se o Rei Salomão, filho de Davi, foi o ghost writer de Coélet ou Eclesiastes. O autor estudou todos os aspectos da vida material e concluiu: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Não há nada de novo debaixo do sol, tudo se repete”. No entanto, nada disso impede um indivíduo de reconhecer O Criador e observar suas leis. Para Coélet, a sabedoria consiste em realizar a ação certa no tempo certo. Cada instante tem sua ocupação e preocupação. Não há garantias de felicidade, mas a possibilidade de encontrá-la. Os caminhos para felicidade: relativizar o que não valoriza a vida; trabalhar para si e usufruir dos frutos do próprio trabalho; ser solidário e partilhar; temer a Deus – o único soberano, digno de fidelidade.

MARA LÚCIA MADUREIRA, Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras