SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 26 DE OUTUBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

O estrangeiro, o órfão e a viúva

O trio representa outros tantos amados de Deus. Sem rosto, sem voz. Esquecidos, extorquidos. Escravizados e aterrorizados. Frágeis, invisíveis. E eles não são apenas números de realidades distantes

Elma Eneida Bassan Mendes
Publicado em 17/09/2021 às 22:32Atualizado em 18/09/2021 às 01:59
Elma Eneida Bassan Mendes

Elma Eneida Bassan Mendes

É tão perversa que sangra a alma. A situação de penúria desses três grupos de pessoas segue intacta. Desvalidos e entregues à má sorte, a tríade arrasta seu drama por milhares de anos. Marcados desde o Antigo Testamento, atravessam o século 21 ainda sem trégua nas injustiças a que são submetidos. O cenário é desolador no Oriente Médio e ingrato no Ocidente.

Começo com os “estrangeiros”. Hoje uma em cada 95 pessoas na Terra precisou abandonar a sua casa. O número é recorde.

O total de pessoas vivendo como refugiadas, requerentes de refúgio ou deslocados internos em seus próprios países - forçadas a fugirem de suas regiões por perseguições, conflitos, violência e violações dos direitos humanos - aumentou de 79,5 em 2019 para 82,4 milhões em 2020. A informação é do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur).

E tem mais. A misericórdia anda escassa entre os mais ricos. São os países menos desenvolvidos que acolhem 27% de todos os refugiados. No ano passado, no auge da pandemia da Covid-19, mais de 160 países fecharam suas fronteiras, sendo que 99 nações não fizeram exceções para pessoas que buscaram proteção internacional.

Agora sobre os órfãos.

Existem no mundo 153 milhões de órfãos. Guerra, fome, doença e pobreza são as causas. Somente a Covid-19 fez surgir globalmente a marca de 1,5 milhão de órfãos. A imensa maioria terá seu futuro vilipendiado por mazelas como suicídio, evasão escolar, violência sexual, exploração econômica. Realidade que cora de vergonha a nossa raça dita humana.

E o que dizer do flagelo das viúvas?

Segundo a Organização das Nações Unidas, o mundo tem 258 milhões de viúvas. Em várias culturas, essa condição significa abandono e abuso. Em muitos países, elas enfrentam preconceitos terríveis. Com um dos índices de viuvez mais altos do mundo, o Afeganistão é um desses. Ao se casar a mulher passa a ser propriedade do marido. Quando ele morre, a família pode exigir que ela se case com um irmão do falecido ou um parente próximo. Como a mulher pertence ao cabeça da família, uma viúva se torna “uma panela sem tampa”, uma “boca a mais para alimentar”. O destino de milhares é a rua e as esmolas.

O trio representa outros tantos amados de Deus. Sem rosto, sem voz. Esquecidos, extorquidos. Escravizados e aterrorizados. Frágeis, invisíveis. E eles não são apenas números de realidades distantes. Muitos estão bem próximos, aqui pertinhos da nossa indiferença. Para esses sempre há o justo Advogado e Libertador. Está em Salmos: “o Senhor protege o estrangeiro, sustenta o órfão e a viúva”. “Pai dos órfãos, defensor das viúvas; eis o que é Deus na sua santa morada.” E, não menos importante, é a sentença do Todo Poderoso: “Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva.” Alerta divino para estes tristes tempos.

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista, escritora e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

 
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