SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 09 DE AGOSTO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Genialidade e empreendedorismo

Landell morreu quase desconhecido. Marconi ganhou o Nobel de Física. Santos Dumont suicidou-se aos 59 anos, deprimido com o uso dos aviões. Orville Wright vendeu sua companhia de aviões e tornou-se milionário

Sérgio Clementino
Publicado em 30/06/2022 às 20:25Atualizado em 30/06/2022 às 21:15
Sérgio Clementino (Reprodução)

Sérgio Clementino (Reprodução)

O Museu Aeroespacial, em Washington, dedica um grande espaço à invenção do avião. Em destaque, está o Flyer 1 original, o primeiro avião criado pelos irmãos Wright. O museu explica em detalhes a história de Wilbur e Orville Wright. Há também um painel com referências a outros nomes que “contribuíram para o desenvolvimento do avião”. Ali, na parte de baixo, um pequeno texto cita Santos Dumont e seu 14 Bis. Em 1903, na praia de Kitty Hawk, na Carolina do Norte, os irmãos Wright fizeram um voo controlado de um aparelho mais pesado que o ar. O Flyer 1 foi lançado de uma catapulta e manteve-se no ar por cerca de 12 segundos. Santos Dumont só faria seu famoso voo em Paris, em 1906. Mas o 14 Bis decolou por meios próprios e voou por cerca de 220 metros. O brasileiro não é considerado o inventor do avião na maior parte do mundo. O feito é atribuído aos Wright. Recentemente a NASA deu o nome de Campo Irmãos Wright ao local onde ocorreu o primeiro voo motorizado em Marte.

Em 1899, o gaúcho Roberto Landell de Moura fez uma transmissão de voz por ondas de rádio em São Paulo, numa distância de 4 km. No mesmo ano, o italiano Guglielmo Marconi fez uma transmissão no Canal da Mancha, mas emitiu apenas sinais de código Morse. Só em 1914 Marconi faria a primeira transmissão de voz por rádio. Ainda assim, em qualquer pesquisa você encontrará Marconi como o inventor do rádio.

Mas, afinal, por que os geniais Landell de Moura e Santos Dumont não tiveram o mesmo reconhecimento mundial que seus concorrentes? Explicações podem existir muitas. Mas o fato é que as invenções de Marconi e dos irmãos Wright tiveram seguimento. Já os brasileiros, por motivos próprios ou alheios, não foram adiante.

Logo no início, Marconi criou uma companhia de telecomunicações. Em 1912, já produzia rádios em larga escala para navios. Mesmo após sua morte, a empresa seguiu seu curso. Em 2006 foi comprada pela Ericsson. Já o padre Landell foi chamado de bruxo, teve sua residência invadida e seus experimentos destruídos. Achavam que tinha parte com o demônio. Com muito custo, patenteou alguns inventos nos Estados Unidos, mas, endividado, parou por aí.

Os irmãos Wright trabalharam para criar não só uma invenção, mas um produto. Patenteavam cada fase, mantinham sigilo para evitar plágios. Logo depois do primeiro voo fundaram a Companhia Wright, para fabricação de aviões. Santos Dumont fez exibições públicas e circulou nas altas rodas parisienses. Seu invento comprovava suas teorias, mas não era algo a ser comercializado. Quando da decolagem da indústria aeronáutica, os aviões produzidos decorriam mais da invenção dos irmãos Wright do que das descobertas do brasileiro.

Landell morreu quase desconhecido. Marconi ganhou o Nobel de Física. Santos Dumont suicidou-se aos 59 anos, deprimido com o uso dos aviões. Orville Wright vendeu sua companhia de aviões e tornou-se milionário. A história explica que a genialidade é melhor quando caminha junto com o empreendedorismo.

SÉRGIO CLEMENTINO, Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras

 
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