SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SÁBADO, 04 DE DEZEMBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Fazer o bem

A noção da caridade é muito antiga. E ela vem sendo aperfeiçoada ao longo do tempo. Neste mundo, é preciso que o bem se transponha, inclusive esteticamente, no plano exterior, para que as pessoas vejam o bem sendo realizado e nele e se inspirem, para que a solidariedade seja um valor dominante.

Evandro Pelarin
Publicado em 25/11/2021 às 22:08Atualizado em 25/11/2021 às 22:10
Evandro Pelarin

Evandro Pelarin

Qual a razão ou o sentido da prática do bem? Essa é uma questão intrigante. Pode ser Madre Teresa de Calcutá ou uma pessoa desconhecida, até anônima. Uma ou outra, o que a leva a ajudar o próximo? Dias desses, ouvi uma explicação que me parece bastante convincente.

Quem faz o bem, geralmente, procura estar feliz. E a felicidade é incompatível com o individualismo. E não é possível mantê-la se o nosso semelhante passa fome, frio ou sede. Por isso que a pessoa feliz é solidária, pois a felicidade é um sentimento completo quando desfrutada por todos. Se há alguém fazendo o bem, tenha certeza que essa pessoa é muito feliz.

Alguns benemerentes preferem o completo anonimato; outros não se importam com a publicidade de suas ações. Nesse ponto, é comum recorrer a Mateus 6, 3: ‘... quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita’. Desse modo, será que apenas o benfeitor anônimo está certo? A resposta é não.

Um dos sentidos desse ensinamento bíblico é mostrar que a beneficência não é palco para elevação moral do caridoso, como se ele fosse alguém melhor que os outros e, com isso, desfrute de vantagens pessoais. Uma boa ação, de conhecimento público, não é ilegítima.

Mesmo porque, e já que ela foi citada no início, como ficaria o exemplo de Madre Teresa? O conhecimento público de suas boas obras e o reconhecimento delas, com o prêmio Nobel da Paz, invalidariam o seu trabalho de dedicação à humanidade? A resposta, mais uma vez, é não.

A noção da caridade é muito antiga. E ela vem sendo aperfeiçoada ao longo do tempo. Neste mundo, é preciso que o bem se transponha, inclusive esteticamente, no plano exterior, para que as pessoas vejam o bem sendo realizado e nele e se inspirem, para que a solidariedade seja um valor dominante. Aliás, segundo Mateus 5, 16: ‘Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus’.

Se o benfeitor tem no coração uma armadilha, usando suas boas ações para alcançar benefícios próprios, certamente, ele não é uma pessoa feliz. Porque a felicidade que motiva as pessoas a fazer o bem, repita-se, não é individualista. Quem faz o bem, portanto, quer no anonimato, quer à luz do mundo, só espera que o outro seja feliz.

EVANDRO PELARIN, Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras

 
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