SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Família: vulnerabilidades e soluções

Toda família é suscetível a crises e vulnerabilidades. Não existem famílias sem problemas, mas, sim, aquelas capazes de lidar com as adversidades de modo competente e eficaz

Mara Lúcia Madureira
Publicado em 22/06/2022 às 20:14Atualizado em 22/06/2022 às 21:36
Mara Lúcia Madureira (Reprodução)

Mara Lúcia Madureira (Reprodução)

O tema “Família” tem sido abordado em quase todos os contextos, sob diferentes perspectivas. Nos últimos tempos, por razões ideológicas e políticas, a questão ampliou seu espaço nas mídias. No entanto, faltam espaços de reflexões críticas e iniciativas que possibilitem ações práticas de prevenção e produção de meios de enfrentamento para garantir os direitos individuais, grupais e de cidadania, a partir de aportes no contexto familiar.

As vulnerabilidades devem ser pensadas como quaisquer fatores que fragilizam os sujeitos, na defesa de seus direitos e exercício da cidadania, levando em consideração o impacto da cultura, nas relações familiares, as desigualdades sociais, situações de riscos, abusos físico, sexual e psicológico, dependência de álcool e outras drogas, assédios, privações de direitos básicos de saúde, educação e justiça.

A condição de vulnerabilidade não representa, necessariamente, a existência de danos reais ao indivíduo ou grupo familiar, mas um estado de fragilidade ou impotência, diante de situações de risco evidentes, limitantes ou incapacitantes ao exercício da cidadania. É dever do Estado e da sociedade civil amparar e preparar sujeitos ou grupos vulneráveis para o enfrentamento das crises e provações, por meio do desenvolvimento de competências para tomadas de atitudes e mudança da sua condição.

No entanto, a realidade tem mostrado ações profissionais, nas áreas de políticas de saúde, assistências social e jurídica, orientadas por uma cultura de isolamento e responsabilização do indivíduo e da família por seus problemas, sem levar em consideração aspectos relevantes relacionados às contingências e contextos de vida desses indivíduos. O discurso de resiliência familiar, desprovido de fundamentos, contribui mais para reforçar as vulnerabilidades e aumentar a privação da cidadania.

Toda família é suscetível a crises e vulnerabilidades. Não existem famílias sem problemas, mas, sim, aquelas capazes de lidar com as adversidades de modo competente e eficaz. A família necessita de apoio para desenvolver-se como grupo, promover mudanças nas condições estruturais do pensamento e comportamento de seus membros, desenvolver ao máximo suas potencialidades e superar as vulnerabilidades – requisitos quase impossíveis de serem alcançados sem apoio externo. É preciso pensar e agir no sentido de ampliar o repertório comportamental das famílias e ajudá-las a desenvolver novas habilidades e competências para lidar com as demandas, conforme elas se apresentam.

As intervenções focadas no desenvolvimento familiar visam ao fortalecimento das relações, à capacidade de compromisso e respeito aos limites e diferenças individuais, ao aumento da segurança, à melhora do humor e dos afetos, à compreensão e solução dos problemas, à manutenção da esperança, ao treino assertivo (clareza comunicacional) e à definição de objetivos e tomadas de decisões compartilhadas, entre outras.

A família deve ser pensada sem vieses ideológicos, livre de preconceitos e conceitos reacionários. Família é a base para o desenvolvimento individual e a formação de futuros cidadãos. A família tem de ser protegida por ações dos agentes de saúde, assistenciais e da lei, por iniciativas da sociedade civil e políticas públicas integrativas de prevenção ao uso e dependência de álcool e outras drogas, a comportamentos de risco, à violência infantil e doméstica, com tratamento e proteção às vítimas e punição e ressocialização dos agressores e para se evitarem a evasão escolar e gravidez na adolescência. Que se garantam a saúde, segurança, bem-estar e os direitos, no contexto familiar, considerando os tipos e origens das fragilidades e as vulnerabilidades e se combatam o preconceito, a vergonha em buscar ajuda, a reagressão das vítimas por parte dos profissionais de saúde, educação e órgãos judiciais e a culpabilização da família por suas vulnerabilidades.

MARA LÚCIA MADUREIRA, Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras

 
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