SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Fama, ancestralidade e reverência

Em 2007, para celebrar os 80 anos do Zé do Rancho, genro e netos organizaram um show, do qual se fez um DVD. Ali, despidos de títulos e discos de ouro e platina, a família celebra a vida e obra de seu patriarca

João Paulo VaniPublicado em 10/09/2021 às 22:40Atualizado há 11/09/2021 às 01:51
João Paulo Vani

João Paulo Vani

Há alguns dias, em uma discussão literária da qual participava, surgiu a palavra “ancestralidade”. Dessa simples menção nasceu este texto, uma lembrança à uma famosa família.

Nascido e criado em Rio Preto, orgulhoso do meu sertão, desde sempre ouço sobre a presença de Chitãozinho e Xororó em nossa cidade. Do que ouvi, não sei distinguir o que é real ou fictício: tinham fazenda por aqui; familiares por aqui; viveram por aqui; muito transitaram por aqui. Resultado: tornei-me grande fã e, à medida em que os anos passavam, passei a prestar um pouco mais de atenção à família de Durval, com olhar crítico.

A superexposição à qual artistas são submetidos torna-se, evidentemente, um entrave àquilo que se chama de “vida normal”. Não bastasse a própria fama, Durval incentivou seus filhos a desabrochar em uma carreira brilhante. Como efeito colateral, ao longo dos anos, pai e filhos, por muitas vezes, foram notícia em revistas de fofoca, sobre temas que nada têm de interesse público, mas que alimentam o showbiz. E, mesmo diante de tudo isso, Durval sempre aparecia ao lado de sua esposa, Noely, filha de famosos, mãe zelosa, constantemente ao lado dos filhos em programas de TV e shows pelo Brasil.

Sim, para quem não sabe, Durval é genro de Zé do Rancho, cantor e compositor, precursor das gerações de estrondoso sucesso midiático, que ao lado da esposa, Mariazinha, emplacou o hit “Abre a porta, Mariquinha”, em 1969, que duas décadas mais tarde encantou o Brasil na voz de seus netos – terceira geração de famosos.

Por mais que minha percepção me fizesse manter a família em meu radar, foi aos poucos que confirmei aquilo que sempre me pareceu evidente: a importância dada aos laços. No início dos anos 2000, o astro do sertanejo dá lugar ao pai orgulhoso, e canta “Ave Maria” em celebração de formatura da filha.

Em 2007, para celebrar os 80 anos do Zé do Rancho, genro e netos organizaram um show, do qual se fez um DVD. Ali, despidos de títulos e discos de ouro e platina, a família celebra a vida e obra de seu patriarca. Durval e Durval Junior acompanham Zé do Rancho em apresentação instrumental, como coadjuvantes. Emoção e linguagem corporal roubam a cena quando Sandy Leah, cantora com 20 milhões de discos vendidos canta Michael Jackson e leva o avô às lágrimas; ou quando brinca ao lembrar da percepção do avô sobre seu talento, e apresenta uma canção nunca gravada, em singela homenagem a ele. Ali não estavam as grandes estrelas, capazes de lotar estádios, adoradas por um exército de fãs; ali estavam os netos honrando sua ancestralidade, reverenciando o avô, o astro da noite.

Aos 40 anos de carreira de Chitão e Xororó, Durval Junior registra o pai em ambientes íntimos, e mostra um pouco da “normalidade” em que vivem. Neste ano, ao celebrarem o Jubileu de Ouro e em meio à pandemia, Durval deixa de lado a alcunha de meio século e lança um single como “Vô”. A famosa família chega à sua quarta geração deixando ainda mais claro que, o que esteve em primeiro plano em suas estreladas vidas sempre foi a família.

Prof. Dr. João Paulo Vani, Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

 
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