SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 16 DE MAIO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Desejos encalacrados

São canções a revelarem a alma dos anseios e, à parte seus encantos poéticos e a melancolia encalacrada no coração brasileiro, motivam no povo quereres de aproximação às elites que, pela arte, pouco se concretizaram

Romildo Sant'Anna
Publicado em 14/05/2022 às 17:55Atualizado em 14/05/2022 às 18:13
Romildo Sant’Anna (Reprodução)

Romildo Sant’Anna (Reprodução)

Em certos meios populares, expressões da modernidade na arte não passam dum baú de adivinhações complexas no intuito de afastar a população em geral dos seletos grupos de prestígio, donatários de ambientes da alta cultura e onde se respiram charme e refinamento. No entanto, embora vigore sentimento de negação a esses valores, há fundas vontades de se apropriar dos códigos superiores na ilusão de poder subir do estágio inferior a degraus melhores na escala social.

Na década de 1930, época em que agitações intelectuais e artísticas defendiam modernizações dos meios e enredos “do” e “para” o povo, parcela do mesmo povo voltava-se à imitação dos modelos burgueses, elitistas. E, assim, se a música popular é a expressão mais epidérmica dos anseios, talvez por meio dela possamos vislumbrar esse fenômeno. Tomemos algumas canções dum ícone daquele tempo, Orlando Silva.

Nele, o esteticismo pomposo, as “palavras difíceis”, o parnasiano gosto de inverter as frases, enfim o rebuscamento da linguagem o fizeram ser aclamado como o Cantor das Multidões. Pensavam: “Entendi quase nada, mas achei bonito”.

Na valsa “Rosa” (1937, de Pixinguinha e Otávio de Sousa), avultam preciosismos ornamentais e enfeites estilísticos na forma e conteúdo. Num idealismo clássico, a amada paira inatingível, com atributos quixotescos (Dulcineia), e não como um ser comum (Aldonça):

“Tu és

divina e graciosa, estátua majestosa 

Do amor, 

por Deus esculturada, 

e formada com o ardor 

da alma da mais linda flor 

de mais ativo olor

que na vida 

é preferida pelo beija-flor!”.

 Imagens se mesclam ao parnasianismo de Olavo Bilac:

“És láctea estrela, és mãe da realeza, 

és tudo enfim que tem de belo 

em todo resplendor da santa natureza!”.

 Alheio aos impactos modernistas, em “Neusa” (1938, de A. Caldas e C. Figueiredo) outra vez o elogio à mulher impõe-se à vida palpável:

“Há na luz clara e tranquila do luar 

um poema em louvor do teu olhar

porque a própria natureza 

se enleva em tua graça, 

canta tua beleza”.

 Em “Apoteose do Amor” (1936, de Cândido das Neves), um erotismo contido exalta a amada em face do infinito:

“Deus, só Deus sabe que os olhos teus 

são para mim dois faróis clareando o mar... São dois lírios os teus seios alabastrinos,

quase divinos, 

parecem feitos para o meu beijo...”.

 Outra constante no repertório do grande cantor é a sensação crepuscular da vida, próxima em morbidez do “mal du siècle”. “Caprichos do Destino” (1938, de P. Caetano e C. Cruz) é um exemplo:

“Se Deus um dia 

olhasse a terra e visse o meu estado, 

na certa compreenderia 

o meu trilhar desesperado”.

 São canções a revelarem a alma dos anseios e, à parte seus encantos poéticos e a melancolia encalacrada no coração brasileiro, motivam no povo quereres de aproximação às elites que, pela arte, pouco se concretizaram.

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingo

 
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