SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 09 DE AGOSTO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Cultivo da mente

Se for para lutar, que seja por justiça de fato, pelo combate à fome e à violência, pela diminuição das desigualdades sociais, pelo direito à vida, educação, saúde, ao trabalho e à dignidade, sem exceções

Mara Lúcia Madureira
Publicado em 03/08/2022 às 20:23Atualizado em 03/08/2022 às 21:04
Mara Lúcia Madureira (Reprodução)

Mara Lúcia Madureira (Reprodução)

A capacidade de redirecionar-se para o bem é a manobra mais fascinante que um indivíduo pode executar durante a vida. Para mudar o rumo da história pessoal, é preciso, antes, reformular o sistema cognitivo e erradicar crenças vertidas nas mentes, pelos antepassados, sem autorização ou consciência por parte das vítimas. Um exemplo interessante e bem conhecido é o de Saulo, nascido em Tarso, atual Turquia, entre os anos cinco e dez da era cristã.

Saulo, filho de ricos comerciantes, recebeu excelente formação educacional e uma rígida doutrinação religiosa. Sua mente foi toda trabalhada para defender as crenças familiares, agora suas também, e combater a diversidade religiosa, mesmo sob perseguição e tortura. Assim fez o jovem violento, fiel às tradições e, convencido de agir em nome de Deus, Saulo perseguiu e torturou grupos cristãos e participou do apedrejamento do apóstolo Estêvão. A nova fé incomodava. Para os inseguros, o diferente é sempre ameaçador.

Saulo teve uma epifania, uma experiência descrita por iluminação e cegueira temporárias, e, a partir de então, transformou-se em apóstolo de Cristo, batizado como Paulo. No ano de 49 d.C., escreveu: “...tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua carne, da carne ceifará corrupção, mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo o ceifaremos. Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas, principalmente, aos domésticos...” (Gl 6:7, 10).

As camadas profundas e a superfície da mente humana são feitas da mesma matéria: crenças. As memórias remotas e os pensamentos recentes são formados de imagens, sensações, conceitos, preconceitos, informações, desinformações, experiências, projeções, fatos, ilusões e desejos. A criança herda e reproduz as aprendizagens transgeracionais, nem sempre veneráveis. A indefesa mente infante não distingue certo e errado; como um solo fértil, recebe e germina qualquer semente nele depositada.

Assim, como o joio e trigo crescem na mesma seara e só podem ser diferenciados na fase adulta, as crenças aprendidas só podem ser analisadas à luz da razão, e essa depende da capacidade de conhecer. Quanto maior o conhecimento, maior a percepção da ignorância. Uma pessoa consciente de seus limites evita discussões sobre temas que desconhece, porém, não desperdiça oportunidades de aprender. A humildade é um efeito colateral do conhecimento. A arrogância é produto da ignorância. Sábios compartilham saberes. Tolos lutam para fazer prevalecer as suas ideias.

O apego às crenças engessa o pensamento e a obsessão pelo passado inviabiliza o presente. O domínio das novas tecnologias pode criar a ilusão de atualização, mas, em essência, o ser humano não evolui na mesma velocidade de suas invenções. Crenças odiosas podem permanecer nos solos da mente, por anos a fio, à espera de oportunidades para se manifestarem. Basta uma brecha moral e elas invadem e contaminam os espaços de convívio sadio.

A humanidade é viciada em tensões. A disputa entre a evolução e o retrocesso é constante em toda a história civilizatória. O maior desafio da espécie é encontrar a paz entre os povos. Aceitar as diferenças e conviver em harmonia seria uma vitória da razão, mas parece nos faltar inteligência para atingir tal estágio. Gente de todas as etnias, religiões, orientações sexuais e idades devem ter seus direitos fundamentais garantidos. Toda manifestação supremacista deve ser combatida. Não há espaço e nem disposição para ideias abjetas. O mundo é o lugar de todos.

Se for para lutar, que seja por justiça de fato, pelo combate à fome e à violência, pela diminuição das desigualdades sociais, pelo direito à vida, educação, saúde, ao trabalho e à dignidade, sem exceções. Se for para ter fé, que seja na verdadeira ideia da criação divina, na iluminação espiritual, na prática efetiva de amor ao próximo.

Se for para salvar, salvemos o planeta da nossa ganância, salvemo-nos das inverdades plantadas em nossas mentes, salvemos toda a biodiversidade, animais e árvores, inclusive os frutos de nossas árvores genéticas, contaminadas por fungos tóxicos de safras anteriores.

MARA LÚCIA MADUREIRA, Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras

 
Grupo Diário da Região.© Copyright 2022É proibida a reprodução do conteúdo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por