SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 03 DE DEZEMBRO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Cega, surda, muda e lenta

Eu, por exemplo, cada vez enxergo menos cara feia. Se é para mim, nem detecto. A visão fica ruim. Meus olhos embaçam para essas faces duras. Consigo perfeitamente não ver. Uma catarata me impede

Elma Eneida Bassan Mendes
Publicado em 15/10/2021 às 22:32Atualizado em 15/10/2021 às 22:34
Elma Eneida Bassan Mendes

Elma Eneida Bassan Mendes

Uma coisa boa de envelhecer é que a gente vai ficando invisível. Essa me parece uma excelente vantagem. Veja bem. Passamos a maior parte da vida sendo adultos. Adultos costumam ser evidentes ao extremo. Aparecem muito. Estão por toda a parte e a maioria é visivelmente irritada, cansada, chatinha, sem alegria. Escancaradamente problemática. O adulto ama exibir que é um ser encrencado. Gosta de mostrar o nó que é a sua vida. E esse nó só começa a ser desatado lá na porta da velhice. Não porque tudo foi resolvido, mas porque a essa altura da trama não compensa mais complicar. As picuinhas familiares. O balaio de bobagens e complexos que castigou o lombo por tantos anos. O apetite por emoções avassaladoras. É impressionante como tudo isso some, sai de cena. Desaparece. É você esvaziada de complicações, invisível, transparente a deslizar ilesa e em paz por caminhos bem conhecidos. É você no recôndito dos valores que realmente interessam.

E tem mais uma penca de coisas que melhoram bastante com o passar do tempo.

Eu, por exemplo, cada vez enxergo menos cara feia. Se é para mim, nem detecto. A visão fica ruim. Meus olhos embaçam para essas faces duras. Consigo perfeitamente não ver. Uma catarata me impede. O cristalino fica opaco para rancores, indiferenças e para o mau humor alheio. Bem eu que já me incomodei tanto por tão pouco. Incrível pensar que eu sofria por situações que hoje sequer localizo, valorizo. Os melindres vão se apagando no horizonte e isso é ótimo.

Outra coisa boa é que também estou ficando surda. Ainda não ultrapassei a casa dos 60 - que é uma espécie de debut da velhice - e minha audição já está despencando, rumo ladeira abaixo e sem freio. Ouço o essencial, só o que me basta. Sem ruídos, alarmes estridentes. Os sons que me chegam eu os escolho, na medida da minha emoção. Fase esplendorosa essa.

Na fiada dos bons acontecimentos de ir envelhecendo está uma bem-vinda mudez. A gente fica notadamente mais quieta. É a adesão livre e sensata ao “boca fechada não entra mosquito”. Relíquia do tempo. Sabedoria do entardecer. A fase é de contemplação e não de confusão, indigestão. O silêncio se torna um companheiro incrível, peregrino fiel, aliado dos bons. Os instantes mais inebriantes, inesquecíveis são mudos. Sem tagarelice. E também estou mais lenta, lerda talvez seja a palavra. O tempo é meu, vou no meu passo. Quem quiser que passe a frente, e não me apresse, por gentileza.

Invisível para tudo o que não for bom. Cega, surda, muda e lenta para aquilo que não expressa a delicadeza e a beleza merecidas daqui em diante. É o amadurecer da vida. Quando se consegue tratar bem, com respeito e amor cada novo e precioso dia. É o tal presente que os adultos desprezam, se esquecem, ignoram. Encerro com o craque Mário Quintana num verso seu que sempre me encanta, de ternura e paixão.

“Só as crianças e os bem velhinhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperanças são breves.”

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista, escritora e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

 
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