Aprisionamentos
Aprisionam-se rios, praças, ruas. Aprisionam-se corações e mentes. E nós todos somos reféns das prisões que construímos e ampliamos cada vez mais. E numa inversão maquiavélica libertamos o medo. Que nos aprisiona também

Tenho notado que a cidade anda estressada, respirando mal. A chuva que não cai, as queimadas que os infratores insistem em produzir e o calor que recrudesce no final da tarde, a deixam inquieta e triste. Observo o entardecer melancólico encarcerada que estou no tráfego. Reflito: desmatam e não sabem porque o clima vai de mal a pior; aprisionam os rios e não conseguem entender as enchentes; aprisionam também as ruas e não compreendem porque não são capazes de circular livremente com suas poderosas máquinas voadoras. Nesse pôr do sol de agosto, na ilha central da cidade, os carros mais pareciam vagões de trem atrelados uns aos outros. Os semáforos abriam e fechavam e permanecíamos no mesmo lugar.
O curioso nesses engarrafamentos é que o pessoal, buzina e buzina, pensando resolver o problema, como se miraculosamente, as ruas de Rio Preto se transformassem em largas avenidas, com três ou quatro faixas lindas e bem sinalizadas, nas duas mãos de direção, em que os veículos pudessem correr livremente. Quando a luz verde se acende, saem como loucos, ultrapassam num modo desesperador, como se transportassem doentes e feridos, além daqueles que não respeitam sinal algum, nem às ambulâncias ou aos bombeiros costumam dar passagem. Perguntar não ofende e como cidadã, pois minha formação acadêmica não é compatível com a de engenharia de trânsito, indago: não seria possível aqui, a famosa “onda verde”, que é a sincronização dos semáforos para dar mais agilidade ao tráfego? Ou seria o traçado das nossas vias, incompatível com tal procedimento?
Historicamente, nosso país e seus governantes têm um modo sui generis na condução da coisa pública: não costumam preservar o que há de bom, a exemplo da nossa malha ferroviária, relegada a segundo plano, priorizando-se assim, o transporte rodoviário e consequente aumento de veículos nas estradas, com um número cada vez maior de acidentes com vítimas, cenário atual.
E nessa clausura fico imaginando quão sensacional seria a exemplo do Tejo em Portugal e do Sena em Paris, na Avenida Alberto Andaló, o rio Canela a fluir livremente e no final do dia, ao invés do que existe hoje, teríamos bares, cafés, galerias e restaurantes de onde poderíamos, ao pôr do sol, curtir a ondulação das águas no frescor da tarde. Da mesma forma, na Bady Bassitt, o Borá e na Murchid Honsi, o Aterradinho. Seria demais! Mas, não! E temos o que temos para hoje: enchentes e mortes, além do prejuízo material e sermos prisioneiros no trânsito.
Perdemos nosso espaço social nas ruas, nas praças e nos enclausuramos no ar-condicionado dos shoppings centers. E o direito de ir e vir pelas calçadas da nossa cidade, com segurança para todos, continua a nos ser negado.
Mesmo assim, sempre que possível, deixo o carro e prefiro, então, andar a pé pelo centro da cidade, apesar do passeio perigoso. É mais democrático, mais interessante e possível, por enquanto. As pessoas que por ali andam, ainda não estão submetidas a um padrão. São libertos, soltos e a moda de rua é mais criativa, original, pois a convencional, escraviza. Aprisiona também.
Aprisionam-se rios, praças, ruas. Aprisionam-se corações e mentes. E nós todos somos reféns das prisões que construímos e ampliamos cada vez mais.
E numa inversão maquiavélica libertamos o medo.
Que nos aprisiona também.
MERLI DINIZ, Advogada, professora, escritora, cronista e poeta. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras
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