Aos formandos de 72
Naquele ano, Antônio de Jesus e eu (trabalhávamos no comércio) nos juntamos todas as noites em estudos para o vestibular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Calouros em 69; diplomamo-nos em 72. Nossa turma comemora 50 Anos de Formatura

Ao avizinhar-se dos 100 anos, Oscar Niemeyer poetizou: “A vida é um sopro, um minuto, a gente vem, conta uma história e vai embora”. E em meditação poética, Fernando Pessoa exortou: “Vive o momento com saudade dele já ao vivê-lo!”. Suscitam impressões de que o Infinito é um mar de águas revoltas onde o deus-tempo nos põe a navegar.
Retrocedo a 1968. Estudantes da Europa se insurgiam contra as iniquidades da época. Em ‘Para Sempre em Minha Vida’, filme de Gabrielle Muccino, alunos em revolta invadem uma escola romana nos dias atuais. Ao remexerem arquivos, encontram desbotados prontuários e fotografias. Suspiram: “Esses garotos estiveram em 68!”. Naquele ano, Antônio de Jesus e eu (trabalhávamos no comércio) nos juntamos todas as noites em estudos para o vestibular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Calouros em 69; diplomamo-nos em 72. Nossa turma comemora 50 Anos de Formatura.
Éramos meninos, meninas, imaginávamos saber de quase tudo e sonhávamos acordados. Numa canção, Renato Teixeira rememora:
“A gente se inventava
como quem projeta catedrais.
Hoje, infelizmente,
aquele frio de antigamente
não aquece mais.”.
Em São Paulo, o cirurgião Euryclides Zerbini fez o coração dum ferreiro pulsar no peito dum lavrador por vinte e oito dias. Nas vitrolas e estações de rádio, o ‘White Album’ dos Beatles apregoava “Revolution”, repetidamente. E nos muros do mundo, grafiteiros escreviam “É Proibido Proibir”. Num evento libertário, o pastor Luther King teve o tiro na garganta.
Em nosso país, o presidente-general falava em “democracia com autoridade” e, de dezembro em diante, o AI-5 se impôs na mais dura ditadura. Assaltos a bancos, carros-bomba, guerrilhas rurais e urbanas, os “Procurados”, colegas da faculdade algemados, salas clandestinas de tortura, a passeata dos 100 mil, cassações políticas. Vietnã, a Guerra Fria. Simbolizando evasão de tudo isso, a nave Apolo planou na órbita da terra e a nos mostrou magnânima, na calma solene dos azuis. Foi assim que Os Mutantes gravaram ‘Panis et Circenses’, de Gil e Caetano. E a Tropicália tornou-se um respiro, a poesia do tempo em convulsão.
Nos anos de 68, 69, 70..., que nos pareceram os mais varridos dos doidos, os Formandos de 72 nos refletíamos, um a um, no personagem da ‘Balada para um Louco’, de Astor Piazzolla:
“Saiamos a correr, querida minha,
entra nesta ilusão Super Sport!
E vamos voar pelos telhados
com uma andorinha no motor”.
Uns se casaram, namoraram, descasaram, enviuvaram, tivemos alunos, filhos, netos. Os colegas que se foram vivem na nossa saudade. As tentações são iguais, agora, porém, mais comedidas. Continuamos firmes, a sorver instantes da vida e a erguer um brinde a Pablo Picasso em idade avançada: “Só agora sei a metade das coisas que julgava saber aos dezoito anos!”. E a nossa nave vai, vai…
ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos