SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

É isto um homem?

Na obra, o escritor italiano dá voz a todos aqueles que sucumbiram a Auschwitz, em uma literatura de testemunho sem testemunhos, cuja mensagem central é o silêncio ensurdecedor das milhões de ausências físicas registradas no pós-guerra.

João Paulo VaniPublicado em 16/07/2021 às 21:32Atualizado há 17/07/2021 às 07:29
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João Paulo Vani (Guilherme Baffi 24/4/2018)

Quando Primo Levi, sobrevivente do Holocausto, escreveu sua obra-prima, “É isto um homem?”, teve o cuidado de anunciar, logo no prefácio: “[Este livro] não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana”. Apenas para que não restem dúvidas, as “novas denúncias” a que Levi se refere são sobre as atrocidades do Holocausto e, sim, os “aspectos da alma humana” que o autor levanta na obra que empresta seu título a esta crônica, não são apenas os mais elevados.

Na obra, o escritor italiano dá voz a todos aqueles que sucumbiram a Auschwitz, em uma literatura de testemunho sem testemunhos, cuja mensagem central é o silêncio ensurdecedor das milhões de ausências físicas registradas no pós-guerra.

A desconstrução física, moral, espiritual e emocional retratadas na obra explicam, de modo claro, os efeitos da opressão do Estado Nazista sobre judeus e tantas outras vítimas; da “coisificação” do ser humano; da degradação total de homens e mulheres, sem dignidade ou perspectiva.

Desde então, oito décadas se passaram e, nos dias atuais, temos revisitado com tristeza o conceito de “coisificação”: homens têm se sentido no direito de desumanizar suas esposas e, com uma frequência maior do que a sociedade pode tolerar, somos surpreendidos pelos veículos de comunicação, que relatam casos de opressão e degradação de mulheres, cujos algozes são justamente aqueles que deveriam protegê-las. E a documentação disso é farta, com vídeos capazes de revoltar o mais pacífico dos humanistas.

Assim como ocorreu a Levi, não me cabe tratar de novas denúncias neste espaço, mas propor reflexões sobre nossas práticas cotidianas.

Um caso relatado nesta última semana me chamou bastante a atenção: um agressor, dito DJ, obteve mais de 200 mil novos seguidores em uma rede social após a divulgação de um vídeo no qual espanca a ex-mulher.

Ora! Em uma sociedade do espetáculo como a nossa, obter novos seguidores significa ter sucesso – e popularidade – crescentes, ou seja, 200 mil pessoas, consciente ou inconscientemente, aplaudem o espancamento de uma mulher, corroborando com a prática do agressor. E a voz da mulher agredida, quem ouviu?

Quando foi que aceitamos e compactuamos com a desumanização do ser humano, retirando os reais sentidos daquilo que chamamos de “humanidade”? Em que momento nos tornamos esse povo desumanizado, capaz de enaltecer a violência contra a mulheres, contra os homossexuais, contra os negros, contra os nordestinos, contra os desvalidos que vivem nas ruas de nossas cidades, silenciando ao testemunhar o grotesco, em vez de nos revoltarmos?

Mais do que nunca nos cabe promover uma profunda e íntima reflexão sobre nossas próprias práticas para que as próximas gerações não mais aceitem a perda de valores éticos e morais, e resgatem a sensibilidade inerente ao humano que aparentemente perdemos.

Como não tenho respostas, me pergunto sobre o metonímico DJ, representação do covarde agressor brasileiro: “É isto um homem?”

undefinedPresidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

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João Paulo Vani
 
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