SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

Às mulheres de minha família

Por outro lado, tem um pouco de tia Luana no meu franzir de testa espanhol, uma pitada generosa de vó Adriana em meu jeito baiano de decorar a casa e mexer com as plantas, bem como um sopro irrefutável da bisa Amélia no capricho em fermentar longas massas

Letícia FloresPublicado em 19/07/2021 às 20:10Atualizado há 19/07/2021 às 20:13
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- Pareço-me com minha mãe?

Ele responde afirmativamente com a cabeça.

- Fisicamente, eu digo - esclareço.

- De jeito nenhum. Seu pai escritinho. Uma Au-ré-lia – enfatiza ele as sílabas a fim de acentuar a já conhecida referência a meu pai, cujo nome... desconfias?

Caio na gargalhada. Era verdade, sou a cara esculpida em Carrara de meu pai, mas…

- Mas e o jeito? O jeito decerto é de minha mãe.

"Sim, sim, evidente que sim" – interpreto de suas sobrancelhas arqueadas que ora sustentam as linhas de expressão da testa levemente sulcadas pelos primeiros sinais de oxidação da vida.

A genética não se pode refutar, mas, em essência, sou toda Ana – minha mãe. Especialmente quando fecho os olhos e giro o bico da boca para o lado direito enquanto procuro interpretar da melhor forma a informação recebida, mas também quando desconverso o assunto assim que ele pega no meu ponto fraco, observando a indecência dos pássaros que desfrutam das pitangas antes mesmo que essas amadureçam no pé, deixando migalhas de fruto e semente por todo o jardim.

E também o jeito de falar.

- E fala! - completa ele, sarcasticamente.

Não tenho tempo de me melindrar com suas provocações que, afinal, partem de premissas verdadeiras. Eu falo muito, minha mãe também; mas é bem verdade que quando gargalho das piadas paveônicas de meu companheiro quem ri por mim é minha prima Mariana. Basta ouvir-me o riso mais longo e sincero para percebê-la pulsando em meu sangue.

Por outro lado, tem um pouco de tia Luana no meu franzir de testa espanhol, uma pitada generosa de vó Adriana em meu jeito baiano de decorar a casa e mexer com as plantas, bem como um sopro irrefutável da bisa Amélia no capricho em fermentar longas massas. Da bisa Dolores, pego o bom humor de que conta minha mãe, uma vez que morrera de desgosto, sentada em sua cadeira de balanço na varanda enquanto penteava os cabelos que restaram na cachola os quais não foram arrancados pela fúria injustificada daquele antepassado não muito distante que espancava suas mulheres.

Há um pouco em mim de cada prima, tia, avó e irmã que me antecede, e um outro bocado de mim em quem me suceder.

Cada gesto, suspiro, pesar e sorriso se espelha, se acolhe e se encoraja a partir das raízes fincadas por essas mulheres que costuraram, fio a fio, as asas com as quais hoje posso voar.

É de Anas e Marianas, Márcias e Iolandas, Ildas e Damianas, Marias e Lucianas, Sheilas e Luanas, Daianes e Dauanas, Marilenes e Amandas, Cristinas e Cristianas… que sou feita; o mesmo fio do mesmo novelo, colorida pela imprecisão do tempo e relembrada, seja pelo tom do riso ou o amargor do sofrimento, a quem pedir guarida quando perdida e a quem destinar oferendas quando agradecida.

Às mulheres de minha família: sou grata.

Ass.: Aureliana.

undefinedÉ professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras​​​​​​​

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