SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 09 DE AGOSTO DE 2022
EDITORIAL

As três peneiras

Quando se trata da coisa pública, convém saber se o ato a ser praticado é legal, se há recursos para executá-lo e se há necessidade de que seja realizado

Publicado em 01/07/2022 às 00:44Atualizado em 01/07/2022 às 00:53

Seção exclusiva para assinantes. Assine para ter acesso ilimitado.

Já sou cadastrado.

Quero ter acesso ilimitado.

EDITORIAL

As três peneiras

Quando se trata da coisa pública, convém saber se o ato a ser praticado é legal, se há recursos para executá-lo e se há necessidade de que seja realizado

Publicado em 01/07/2022 às 00:44Atualizado em 01/07/2022 às 00:53

É atribuída ao filósofo grego Sócrates a parábola das três peneiras, segundo a qual uma informação, antes de ser levada adiante, precisa passar por três crivos: a verdade (se é um fato confirmado), a bondade (se aquilo vai ajudar ou prejudicar alguém) e a necessidade (se difundir aquela informação é realmente necessário).

Quando se trata da coisa pública, também convém aplicar peneiras. Neste caso, os três crivos seriam a legalidade do ato, se há recursos suficientes para executá-lo e por último, assim como na parábola socrática, se realmente há a necessidade de que seja realizado.

Não restam dúvidas de que a reforma do plenário e de outras dependências anunciada pela Câmara de Rio Preto, no valor de R$ 306 mil, passa folgadamente pelas duas primeiras peneiras – a da legalidade e a da disponibilidade de verbas públicas. A questão é: essas obras, neste momento, são realmente necessárias? O mundo real, fora do prédio do Legislativo, indicam que não.

De acordo com o edital de licitação, o objetivo do projeto arquitetônico é oferecer aos vereadores um espaço “ergonomicamente correto, funcional e com design diferenciado”. Para isso, haverá a compra de móveis planejados, aquisição de tapetes por até R$ 8,3 mil e diversas intervenções que vão desde o plenário até o gabinete do presidente da Câmara. Há ainda a previsão de “implantação de bancadas para receber os equipamentos que compõem o sistema de votação eletrônica”, destinados a computar digitalmente os votos dos 17 parlamentares. Essa aparelhagem será adquirida em uma licitação futura.

Nem é preciso citar dados nacionais, que apontam 33 milhões de brasileiros vivendo em insegurança alimentar, para colocar em dúvida o investimento de R$ 306 mil em recursos públicos neste momento. Basta olhar pelas janelas do prédio legislativo, localizado na rua Silva Jardim, para acompanhar o aumento expressivo de moradores em situação de rua e pedintes nos semáforos, a ponto de ser formado um grupo envolvendo empresários e o poder público para tentar dar uma solução a essa grave chaga social.

Segundo o Ministério da Cidadania, atualmente 17,8 mil famílias rio-pretenses vivem em situação de extrema pobreza, uma quantidade lamentavelmente histórica. Há seis anos, eram 6,6 mil famílias nesta condição – um aumento de quase 170% em um curtíssimo período.

Os R$ 306 mil gastos com a reforma arquitetônica pretendida pela Câmara não resolveriam, por óbvio, a situação destas famílias. Mas poderiam ser um pequeno alento. Caso esse recurso não seja gasto, ele retornará no fim do ano para os cofres da Prefeitura. O Legislativo poderia carimbar esses R$ 306 mil e cobrar garantias do Executivo para que eles sejam integralmente aplicados no auxílio a tantas famílias miseráveis em Rio Preto, que diariamente acordam sem saber se vão comer e o que vão dar de alimento aos seus filhos.

Ao desistir de fazer a reforma neste momento, a Câmara de Rio Preto passaria de forma digna pelas três peneiras e com mais mérito ainda pelo último crivo, que trata da necessidade. Necessidade, essa, que atinge milhares de famílias rio-pretenses. Seria um ato simbólico e concreto em favor de pessoas para quem um real faz toda a diferença no dia a dia.

 
Grupo Diário da Região.© Copyright 2022É proibida a reprodução do conteúdo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por