SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2022
ARTIGO

Tolstói

A ninguém é dado construir a sua felicidade sobre a dor dos outros; o preço poderá ser muito alto

João Francisco Neto
Publicado em 18/01/2022 às 00:21Atualizado em 18/01/2022 às 01:47
João Francisco Neto

João Francisco Neto

“Todas as famílias felizes se parecem entre si; mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Com essa frase lapidar, o escritor russo Liev Tolstói inicia um dos seus mais famosos livros, que viria a ser, também, uma das obras centrais da literatura universal: “Anna Karenina”. Um verdadeiro clássico, no mais completo sentido que essa expressão pode alcançar. Muito já se escreveu sobre essa frase da abertura, com a qual Tolstói inaugura a descrição de um profundo drama familiar, que se passa na Rússia imperial do século 19. A história é aparentemente simples: Anna Karenina, a bela esposa de um alto funcionário da corte, enamora-se por um militar, desafiando os rígidos códigos morais e sociais da aristocracia czarista da época. Como pano de fundo, temos uma descrição minuciosa dos costumes, tradições, relações sociais, tendo como protagonistas um grupo de famílias da nobreza e da alta sociedade.

Ao descrever as famílias felizes e as infelizes que povoam o livro, Tolstói fala de preconceitos, hipocrisia, traição, falsidade, casamentos falidos, paixões, ciúmes, brigas, sentimentos superficiais, isolamento e exclusão social, etc. Dito assim, pode parecer que a leitura do livro seria algo tedioso e aborrecido. Mas, não é. Tolstói, com refinada sensibilidade, soube imprimir um ritmo cativante, que torna a leitura muito agradável, além de produzir no leitor o fenômeno de identificação e reconhecimento com os personagens do livro, pois parece que todos nós já passamos por aqueles mesmos dramas vivenciados por eles. Como pode uma obra de arte se parecer tanto com a vida real, poderíamos perguntar.

Quem chegou até aqui na leitura deste artigo certamente irá se perguntar: mas, por que, a esta altura, falar sobre Tolstói? Ocorre que gerações e gerações de brasileiros leram Tolstói por meio de traduções de segunda mão, isto é, a obra original, escrita em russo, sempre era traduzida para o português a partir de edições francesas, em que se perdia muito do seu sentido original. Eram traduções que faziam uma espécie de “adaptação” do estilo de Tolstói, diminuindo o tamanho das frases e dos períodos, por exemplo.

A tradução sempre foi um problema, pois nunca se consegue passar para a outra língua toda a extensão dos sentidos da língua original. Em alguns casos, ocorre até uma certa desfiguração. Não por acaso, há um antigo ditado que faz um alerta: “traduttori, traditori” (os tradutores são traidores). Já faz alguns anos, que podemos contar com a monumental tradução realizada diretamente do russo por Rubens Figueiredo. Como se não bastasse, em abril de 2021 foi lançada uma nova tradução de “Anna Karenina”, agora feita por Irineu Franco Perpétuo, um mestre da tradução de obras russas.

Para a crítica, ambas as traduções são magníficas, e há quem ache que elas dialogam entre si e até se “iluminam”. Assim, quem já leu poderá fazer um reencontro com essa obra grandiosa; e quem ainda não leu poderá aventurar-se no prazer da leitura de um livro que jamais será esquecido. O final trágico remete a um aspecto sombrio da vida humana: a ninguém é dado construir a sua felicidade sobre a dor dos outros; o preço, às vezes, poderá ser muito alto. No caso de Anna Karenina, o preço foi a sua própria vida.

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP); Monte Aprazível

 
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