SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 22 DE MAIO DE 2022
ARTIGO

Tirem o 'lixo' de minha porta!

Pessoas vivendo na rua é um bom indicador de falhas nas políticas socioeconômicas

Eliane Gonçalves de Freitas
Publicado em 14/05/2022 às 00:11Atualizado em 14/05/2022 às 09:59
Eliane Gonçalves de Freitas (Reprodução)

Eliane Gonçalves de Freitas (Reprodução)

Viver e morar na rua não deve ser fácil. Para quem nunca viveu essa situação, como é o meu caso, nunca será possível entender exatamente o sentimento de dormir em lugares abertos e em pisos duros. Dormir sob marquises de lojas pode ser um grande conforto, exceto em dias de chuva e frio. Comer de acordo com a sensibilidade e bondade de outras pessoas, viver sem perspectivas de ter uma vida com alguma dignidade, não é algo que alguém queira.

Apesar disso, o número de pessoas em situação de rua tem aumentado em São José do Rio Preto. Não é preciso estatística para saber disso. Basta uma volta pela cidade para constatar esse aumento. Esse fenômeno tem várias causas e é uma situação bastante complexa, já que os motivos para uma pessoa viver na rua são diversos. Entretanto, a atual crise econômica e social do país tem contribuído de maneira persistente para essa situação. Não só em nosso município, mas em todo o país, tem havido um aumento expressivo na quantidade de moradores de rua porque perderam o emprego, não conseguem trabalho e, como consequência, sem condições de pagar por moradia e outras contas básicas, como água e energia elétrica.

Quando falamos de pessoas em situação de rua, pensamos imediatamente em homens. Porém, de acordo com o Movimento Nacional da População de Rua, esse perfil tem se alterado. Atualmente, o número mulheres e crianças nas ruas tem aumentado e é cada vez mais comum encontrarmos famílias inteiras morando sob viadutos, pontes e marquises.

Apesar da visível condição dessas pessoas, muito pouco, ou quase nada tem sido feito pelo poder público, sendo a maioria das ações realizada por iniciativas pessoais e voluntárias de grupos não governamentais. Recentemente, a prefeitura de Rio Preto anunciou que vai implantar um local de apoio para alimentação de pessoas em situação de rua. Essa ação foi motivada pelas reclamações dos comerciantes do centro da cidade, que reclamam do lixo deixados por esses cidadãos em frente aos seus estabelecimentos comerciais.

Grupos de lojistas chegaram a aventar a possibilidade de criar uma lei para que os cidadãos que oferecem alimento às pessoas na rua fossem responsáveis por recolher o lixo deixado após as refeições.

O fato é que essas pessoas seguem invisíveis aos olhos de parte da sociedade. Invisíveis, não pela presença, mas pelo fato de não serem considerados como parte de nossa sociedade. São um estorvo. Incomodam. Ninguém quer ver evidência tão sólida de uma crise social e financeira em nosso país. É mais fácil virar os olhos para o outro lado e culpar os próprios moradores de rua, pois devem ser todos bandidos, ou drogados, ou que não querem trabalhar.

O preconceito e falta de vontade colaborar com questões sociais, isso sim é bem visível. Mas, o que esperar de uma cidade cujos representantes aprovam o porte de armas para caçadores e colecionadores e reprovam todo tipo de lei para enfrentar problemas de pessoas menos favorecidas? Para completar o cenário, a câmara de vereadores rejeitou, nesta semana, uma lei para evitar arquitetura hostil no município.

Pessoas vivendo na rua é um bom indicador de falhas nas políticas socioeconômicas. Quem está na rua não foi parar lá por vontade própria. São mulheres, mães, crianças, correndo riscos de fome, doenças e violências. Enquanto isso, a única coisa que algumas pessoas são capazes de fazer é gritar: tirem o “lixo” da minha porta.

Eliane Gonçalves de Freitas, Bióloga e docente da Unesp de São José do Rio Preto. Integrante do coletivo Mulheres na Política, do grupo Com Ciência do Ibilce e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de São José do Rio Preto

 
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