Simbolismo perigoso
Nenhuma instituição de Estado deve estar isenta de críticas e debates na sociedade

Posicionar-se em relação à Polícia Militar, seja para elogiá-la, seja para criticá-la, é como atirar uma pedra em caixa de marimbondo. É uma instituição que gera fortes emoções por vários e profundos motivos. Sensação de segurança e orgulho para alguns e de medo e pavor para muitos.
É óbvio que não deveria ser assim, mas infelizmente é. Essa é nossa realidade objetiva, essa é a Polícia Militar que temos e é a partir dela que devemos conversar sobre seus erros, acertos e possibilidades de mudanças.
É um equívoco inconteste a narrativa construída pela extrema direita de que a exótica cerimônia do 9º Batalhão de Ações Especiais de Polícia de Rio Preto, divulgada em um vídeo nas redes sociais nesta semana, utilizando elementos de supremacia racial e possível apologia ao nazismo, não deve ser questionada por ser tratar de uma passagem tradicional.
Nenhuma instituição de Estado deve estar isenta de críticas e debates na sociedade.
Lamentável e tragicamente, a Polícia Militar do Estado de São Paulo é uma das polícias que mais matam e mais morrem no Brasil.
É sempre bom lembrar que a PM não é composta apenas pelo efetivo que vemos pelas ruas, os filhos da classe trabalhadora que viraram polícia – os que mais morrem na cadeia hierárquica. Ela tem dirigentes, comando e estrutura absolutamente verticalizada. A hierarquia é o pilar básico de sustentação da PM. Tem sempre uma voz de comando oficial por trás de quem está no front.
A perigosa cerimônia de passagem de braçadeira, que virou notícia nacional, merece ser questionada por qualquer cidadão e investigada pelos órgãos de controle, até para que aqueles que desconhecem a simbologia por trás da ação não sejam usados por quem tem consciência dos significados e se vale de uma tradição para fazer apologia ao nazismo.
Cerimônia de passagem de braçadeira com objetos e gestos que simbolizam períodos sombrios da humanidade não tem passagem em nossa Constituição.
O mundo civilizado já convencionou e aprovou em tratados internacionais, dos quais somos signatários, que qualquer gesto de supremacia racial e apologia ao nazismo é crime e quem pratica deve ser responsabilizado por isso.
Tenho convicção de que muitos dos presentes naquela cerimônia ignoram o significado de tais símbolos, bem como as consequências legais para quem os pratica, mas também tenho convicção de que um ritual carregado de simbologias supremacistas e possível apologia ao nazismo não é uma mera coincidência e deve ser investigado e exemplarmente proibido para que nunca mais essa cena triste envergonhe o Estado de São Paulo.
João Paulo Rillo, Vereador (PSOL)