Retrospectiva e projeções
Estamos cheios de esperança e de frustração, de ressentimento e de gratidão, de amor e de ódio

Estamos a poucos dias do final do ano de 2022. Como é de praxe, fazemos retrospectiva sobre o ano que finda e projetamos metas, sonhos, devaneios para o ano vindouro. Foi um ano deveras singular, com alternância de poder na América do sul e do norte, com mais uma derrota na Copa do Mundo, com a flexibilização nas normas de controle da pandemia de covid, com a continuidade de conflitos armados e velados que tão somente atestam o espírito beligerante de parte da humanidade.
Adeus ano velho - feliz ano novo? Há tanta gente machucada por aí, cultivando feridas em vez de buscar antídoto e alívio. Nem todos podem escolher plenamente as ações diárias, pois a influência do meio e de fatores externos ao arbítrio não pode ser ignorada. Limitações financeiras, físicas e psicológicas, a exemplo de fobias e de ansiedade, restringem a qualidade de vida de uma pessoa. Todavia, aprendi com a chegada dos 50 anos que parte dos problemas que acometem pessoas saudáveis e economicamente estáveis surgem de escolhas erradas. Aprendi, inclusive, errando, o que espero fazer menos doravante. É meta.
Quando possível, escolherei estar feliz e tranquilo, mesmo quando isso significar que devo aceitar fechamento de ciclos, sejam profissionais ou afetivos. Um dia, vamos morrer fisicamente, mas a morte não é o fim de tudo: para quem acredita, há uma dimensão espiritual, seja a vida eterna ou o retorno, por exemplo. E há o legado, seja ele genético, advindo dos filhos, ou social, a exemplo de uma obra. As pessoas continuam após a morte, nomeando praça, elemento químico, netos. Para além de tudo isso, há a memória afetiva: sempre que alguém se lembrar de outrem positivamente, tal pessoa renasce. Por outro lado, o esquecimento, o ostracismo, o deixar de lado – isso é a morte ainda que em vida.
Estamos cheios de esperança e de frustração, de ressentimento e de gratidão, de amor e de ódio. Quando possível, temos de optar pelos elementos positivos, respeitando princípios de gentileza, de altruísmo, de compaixão. Alguns amigos reclamam da falta de reconhecimento da parte de parentes, de funcionários, de conhecidos. Afinal, devemos esperar algo dos outros, reciprocidade, por exemplo? Sim. No mínimo, ética, correção moral, cumprimento do dever. Essa história de "não esperar nada de ninguém" é lenda urbana. Esperamos, e muitos frustram as expectativas. Para isso, existem escolhas: podemos escolher não dar a uma pessoa uma nova oportunidade para nos magoar quando a percepção de que ela não se arrependeu e não quer mudar é grande. De todo modo, ninguém oferta o que não tem. Amor e gratidão, por exemplo.
De minha parte, tenho muito para agradecer, pouco a lamentar e apenas paz e saúde para pedir. Sou grato por viver e por não ter enfrentado, de perto, a dor do luto durante a pandemia. Sou grato a meus empregadores e a meus clientes por ter tido trabalho e renda para uma existência digna. Agradeço a meus amigos, familiares e colaboradores por terem tornado a jornada mais leve e prazerosa. Agradeço aos que se foram, deixando lembranças e aprendizagens, tanto benéficas quanto amargas. Lamento pelas faltas cometidas contra terceiros e contra minha essência – quero (e vou) melhorar.
Para 2023, peço saúde e paz de espírito para jamais dizer que a batalha está vencida - resiliência e paciência. Tenho fé em Deus, na vida, em mim e no próximo (quando este for merecedor). Quando vale a pena, tento outra vez - se não, que eu saiba desistir e mudar o foco. Ano que vem, farei exercícios, cuidarei da alimentação e viajarei mais. Espero melhorar como pessoa, como professor, como cidadão. Para quem permanece ao meu lado, sinto-me honrado pela companhia na trincheira, na labuta, na alegria. Para quem se foi, vá em paz. Afinal, seja lá quem te mandou, meu amor te recebeu. Feliz Ano Novo.
Washington Paracatu, Professor do curso de redação Contexto