Os privilégios nas Forças Armadas
Proporcionalmente ao tamanho da tropa, o Brasil tem mais generais do que os EUA

A “mão amiga” do Exército brasileiro é mais amiga de uns do que de outros. Viúvas e órfãs de generais recebem bilhões de reais todos os anos. E por uma mágica burocrática alguns desses oficiais nem precisaram morrer para deixar pensões para seus herdeiros.
As Forças Armadas contam com 360 generais na ativa e 5.054 aposentados. Entre eles estão o general Augusto Heleno e o general Eduardo Pazuello. Salários em torno de R$ 40 mil. Os exércitos britânicos e de Israel, que tem combatido nos principais conflitos mundiais, possuem menos generais. Na Inglaterra são 61 e Israel apenas 21.
Proporcionalmente ao tamanho da tropa, o Brasil tem mais generais do que os EUA, a principal potência bélica do mundo. Enquanto um general dos EUA comanda 1.700 militares a proporção no Brasil é de um general para cada grupo de 1.200 comandados.
E para cada general brasileiro, há 24 aposentados ou na reserva. E não para aí. Além desses generais de pijama, há mais de 8.000 herdeiras de generais que já morreram. E elas continuam recebendo eternamente os soldos dos pais ou dos maridos. Gasta-se mais com generais inativos e seus herdeiros do que com generais que vestem farda todo dia.
As aposentadorias por pensões dos 13.000 generais de pijama, filhas e viúvas de generais mortos custaram 3,7 bilhões de reais em 2022. Foram 40 vezes mais do que o custo dos generais da ativa.
Os privilégios são concentrados no topo da carreira militar. O valor que se gasta para remunerar 13.000 generais e seus herdeiros é praticamente igual ao que se paga a 100 mil soldados e cabos. Além de ganharem muito menos, são poucos herdeiros dessa classe que recebem pensões.
Em 2022, o governo gastou quase três vezes mais com militares e seus herdeiros do que com professores e com médicos. As Forças Armadas estão inchadas, enquanto nas valorosas Polícias Militares falta gente no efetivo. A PM de São Paulo, a maior do país, o efetivo não chega a 95 mil integrantes. Só no exército são quase 250 mil na ativa.
As pensões militares começaram a ser pagas em 1939 aos sobreviventes da Guerra do Paraguai e suas viúvas. Pouco depois as filhas começaram a herdar pensões das mães que morriam. Em 2001, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, finalmente cortou-se o benefício.
Mas só para quem entrou nas Forças Armadas a partir daquele ano. Numa entrevista para a rádio CBN, Fernando Henrique, que tem pai, avô e bisavô como generais, revelou que sua irmã mais velha nunca formalizou casamento para poder receber a pensão do pai. O Ministério da Fazenda estima que vamos pagar essa conta até 2096.
Nelson Gonçalves, Jornalista em São José do Rio Preto