SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUINTA-FEIRA, 11 DE AGOSTO DE 2022
ARTIGO

O que eu vi em Maués

Ailton Krenak diz: ‘Somos terra, somos água’. É preciso considerar os ciclos da natureza e nós, parte dela

Pe. Eduardo Lima
Publicado em 01/07/2022 às 00:33Atualizado em 01/07/2022 às 01:02
Pe. Eduardo Lima (Reprodução)

Pe. Eduardo Lima (Reprodução)

Fui para o Amazonas num tempo em que a floresta estava em grande evidência e de luto. Quando o mundo sentia o acontecido com o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips. O impacto dessas perdas reverberou em todos e, com certeza, ainda ecoa pela mata, rios e igapós, atingindo os povos e animais que nela habitam. Tomo a liberdade de citar a última frase que Dom Philips postou em suas redes sociais – "Amazônia, sua linda" — que, em sua simplicidade, traduz também o meu sentimento por esta região, que me abraça de maneiras diferentes, todas as vezes que lá estou.

Para organizar as muitas atividades de uma Missão UNIVIDA na Amazônia, me desloquei mais de dois mil quilômetros, cortando o Brasil, encurtando o tempo de viagem, usando aviões. O deslumbramento iniciou-se quando, próximo a Manaus, observei o serpentear do Rio Amazonas. E só aumentou quando, em vôo de Manaus até Maués, em aeronave pequena, sobrevoei a floresta. Avião pequeno e a sensação de estar muito próximo de tanta mata e água, causou-me uma estranheza, misto de arrebatamento pela beleza e pelo mistério daquele lugar. Ainda não se conhece tudo que a Amazônia guarda em suas cores densas e profundas como nos quadros de Giovanni Battista Piazetta, naquele céu crepuscular espelhado na água, onde algo de negro e ocre se misturava na chegada a Maués.

Lembro-me de, em criança, assistir pela TV a reportagens, documentários sobre a Amazônia e ficava imaginado como seria estar naquele lugar de tamanha floresta. E tive o privilégio de lá estar, pela quinta vez. E, a cada nova viagem, descubro que aquele fascínio pela floresta que possuía continua em mim e parece que nunca se esgotará. A impressão que tenho é a de que as descobertas são infindáveis nessa vastidão verde e líquida.

Navegar pelas águas de alguns dos rios da Amazônia me faz ter a sensação de que aqui é meu lugar, me sinto apaziguado deslizando por suas superfícies, que refletem céu e mata a ponto de se confundirem. Após navegar horas pelo Rio Maués-Açu, avistamos a comunidade que nos aguardava. Fiquei encantado com tudo o que via, pelas margens do rio e nos barrancos, havia uma alegre comitiva de boas-vindas, muitas pessoas aguardando pelo padre que veio de São Paulo. Ali, antes mesmo de desembarcar, já me senti abraçado por aquela gente e pensei que este momento me trouxe o prazer maior que pude encontrar na Amazônia.

Depois de uma bonita reunião com a comunidade, quando expus as pretensões da Missão Univida entre eles, para janeiro de 2023, me levaram até uma pequena casa de madeira. Logo à chegada, me chamaram a atenção as cortinas nas janelas, flores plantadas ao redor da habitação, muitas cores e detalhes, o asseio - o alumínio das panelas brilhava - onde, por todos os lados, o capricho se manifestava.

Quanta vida nesses rios e igarapés? E a excepcional vegetação? A megadiversidade da Amazônia é também nossa responsabilidade. A vida, quando tentamos entendê-la, nos foge a questão ambiental. Não a computamos em nossas divagações filosóficas. Para explicar essa questão, gosto de citar Ailton Krenak: "Nós somos terra, nós somos água". É preciso considerar os ciclos da natureza e nós como parte dela. Água é um ser vivo, capaz de alimentar-nos e dar-nos vida.

Após dias intensos de trabalho, retornei à minha casa, com toda a estrutura organizacional da 3ª Missão Univida Amazônia pronta. E com a certeza de que, seja navegando ou voando pela Amazônia, abrigado entre seu povo, estou no caminho certo, o que escolhi, o que me define: ser missionário. Quando lá estou, sinto-me mais perto da paz, de Deus.

Pe. Eduardo Lima, Presidente da Univida e coordenador Diocesano de Pastoral; Jales

 
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