ARTIGO

O lembrete do general

A democracia, mesmo permeável às instabilidades, é capaz de impor freios às voracidades do poder

por Marival Correa
Publicado em 06/11/2020 às 23:49Atualizado em 06/06/2021 às 17:31
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Não mais servindo ao governo, o general dele se despede lembrando que as legiões romanas não podiam ultrapassar o Rubicão - na geografia, uma fronteira física a separar a Roma itálica das Gálias bárbaras e, nos costumes e nas leis, a demarcar, em linha cívica, os limites entre a transitoriedade dos governos e a perenidade do Estado, ente ao qual essas legiões e seus chefes deviam subordinação e fidelidade. O recado do general, encimado por um "memento mori", tal e qual se recomendava ao comandante vitorioso evitar que seu gáudio, insuflado pelas loas, o levasse à intemperança das sublevações, adverte sobre o dever militar de guarda das instituições e propõe, à moda do dizer de Churchill, que a democracia, mesmo permeável às instabilidades, é capaz de impor freios às voracidades do poder, por isso, o menos pior dos regimes políticos.

Roma e sua história provam isso. Da sua fundação até o ano 509 a.C., Roma foi uma monarquia. A partir daí, transformou-se em República com poder crescente, suas fronteiras estendendo-se por considerável porção europeia e territórios na África costeira ao Mediterrâneo e no Oriente Médio. Em quase 600 anos de República e até ao seu primeiro triunvirato, a Roma poderosa foi governada por tribunos, cônsules e ditadores. Essa instituição veio a minar-se ante os apetites de dois generais inimigos entre si, Julio Cesar e Pompeu, associados a Marco Licinio Crasso, cuja morte renovou em escala bélica o confronto entre os dois triúnviros restantes e motivou Julio Cesar e suas legiões à transposição do Rubicão. Decisão antes tão temerária e vedada, que é do general famoso a frase "alea jacta est", "a sorte está lançada" ou, em linguagem mais chã e usual, "é agora ou nunca". Julio Cesar venceu e se fez ditador, quem sabe desdenhando a recomendação do "memento mori", um "lembre-se que é mortal", pois em 44 a.C., foi assassinado à vista de senadores, um dos algozes, Brutus, praticamente seu filho adotivo. A terrível crise gerada pela morte de Cesar fez nascer um segundo triunvirato sob Otavio, Marco Antonio e Lepido. Logo depois, Lepido foi exilado e Marco Antonio e Otavio, em ódios recíprocos, foram à guerra. Marco Antonio chegou ao suicídio e Otavio, aceitando o título de Augusto em 27 a.C., tornou-se o primeiro imperador do que hoje se chama Império Romano e que, de Tiberio a Caligula, de Trajano a Adriano, de Marco Aurelio a Comodo e outros mais em esplendor e declínio, veio a findar-se em 476 d.C.

A história romana é a história do poder elevado à sua máxima possibilidade, sem que com isso atinja o absoluto, por esgotante e autofágico. Romulo e Remo amamentados pela loba ou pela prostituta Aca Laurentia noticiam o épico ou a desesperada sobrevivência? Por um milênio, Roma floresceu em tal escala que mudou o Mapa Mundi. Foi agreste e morigerada com Cincinato, dissoluta com Nero e teve seu fastígio na chamada "Pax Romana", entre os governos que vão de Augusto (28 a.C.), findas as guerras cívis, a Marco Aurélio (180 a.C.), com a expansão do Império custodiada por um exército profissional de alta qualificação e medularmente identificado com o interesse da sociedade romana. Em trajetoria que impactou a Civilização Ocidental, Roma mostrou que o poder erige Impérios, porém, nos seus rompantes assanha vaidades, "inebria, destrói" e, tresloucado, clama pelo seu Rubicão.

Helio Silva, Advogado; Rio Preto