Diário da Região
ARTIGO

O eleitor e o lobo mau

“O que você faz grita tão alto, que eu não consigo ouvir o que você diz”, diz o ditado popular

por Monica Galindo
Publicado em 29/10/2022 às 21:40Atualizado em 29/10/2022 às 21:43
Mônica Galindo (Reprodução)
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Mônica Galindo (Reprodução)
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Há um ditado sobre relacionamentos que diz que no namoro a gente deve abrir bem os olhos e depois de casados, é bom fechar um pouquinho. O problema é que habitualmente fazemos o contrário, no namoro fechamos muito os olhos e após o casamento – sob alguns aspectos – começamos a ver demais.

Não há aqui um incentivo a suportar coisas insuportáveis como, por exemplo, a violência, mas a ideia de que se não houver um mínimo de tolerância cotidiana – se não fecharmos um pouquinho os olhos-, não há convivência possível em espaço algum. Mas ainda assim, como o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho, nós precisamos de olhos bem grandes.

Um outro ditado nos remete à audição: “O que você faz grita tão alto, que eu não consigo ouvir o que você diz”. É uma estratégia dos mentirosos bradar e repetir insistentemente suas mentiras e quanto mais absurdas as mentiras, parece que essa técnica melhor funciona. É comum ficarmos desconcertados diante de mentiras repetidas constantemente e em alto som, mas são as ações - que gritam de verdade- que nos ajudam a desmascarar as mentiras ditas. É preciso, também como o lobo, de ouvidos bem grandes.

Estamos na reta final do processo eleitoral e abrir olhos e ouvidos em relação aos nossos candidatos se refere a olhar o passado de cada um deles. No caso da eleição presidencial, nenhum dos candidatos são nossos desconhecidos. Um deles já foi nosso presidente e o outro é o atual. Se há coisas ou boatos que lhe assustam sobre algum deles, verifique quais foram suas ações quando estava no poder. Se não fez o que o boato diz, por que começaria a fazer agora? Se há coisas que lhe assustam sobre o que o candidato efetivamente fez no seu governo, pergunte por que você deve considerar que ele vai fazer de forma diferente se for eleito?

Nosso pais é laico e isso significa que não temos uma religião oficial e que podemos ter (ou não ter) a religião que desejarmos. Observe como os candidatos tratam todas as religiões, não somente a religião dele e não somente a sua religião por melhor que seja. Respeito religioso tem que ser a obrigação de todos os nossos governantes, porque o presidente do Brasil há de governar o país de todos os brasileiros – religiosos ou não.

Olhar as ações do passado não significa que as pessoas não podem avaliar seus erros e melhorar suas perspectivas, mas em termos de eleições é preciso pensar no projeto que desejamos.

Nos casamentos é comum que se prometa estarmos juntos “até que a morte nos separe”, mas embora a morte seja nosso destino, nós não queremos ser separados por mortes evitáveis, como no caso de muitas pessoas na pandemia.

A maioria de nós, não sabemos usar armas, mas queremos e precisamos ter uma melhor segurança pública. Nós não queremos cortes na educação, queremos mais recursos, por exemplo, que os projetos que buscavam constituir um fundo social para a saúde e educação através dos lucros do Pré-sal voltem para a pauta de discussão.

Nós não queremos que nenhuma religião seja desrespeitada nos seus ritos, queremos que os votos de paz sejam compartilhados. Nós não queremos dizer “até que a morte nos separe”, queremos que a vida nos junte. Nós, eleitores, hoje precisamos, como o lobo, de olhos e ouvidos bem grandes para votar e viver melhor.

Mônica Galindo, Orofessora da Unesp em Rio Preto, conselheira do Conselho Afro Municipal, participante dos coletivos Mulheres na Política e CDINN – Coletivo de Intelectuais Negras e Negros