SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 03 DE DEZEMBRO DE 2021
ARTIGO

O choro de Isabel

Apesar da Glasnot, da queda do Muro e da morte de Fidel, Cuba continua sendo o que sempre foi

Laerte Teixeira da Costa
Publicado em 25/10/2021 às 21:52Atualizado em 25/10/2021 às 21:55
Laerte Teixeira da Costa

Laerte Teixeira da Costa

Revendo velhos artigos, encontro um escrito em 1990, portanto há mais de 30 anos. O título: “Por que chora Isabel”? Referiu-se à triste e comovente luta de Isabel Tejera, uma cubana que, ainda adolescente, lutou ao lado de Fidel Castro contra a ditadura de Fulgêncio Batista. Cristã (os católicos apoiaram Fidel), seu objetivo sempre foi implantar uma democracia na Ilha.

Inicialmente, o destino colocou-a em contato com Regina (esposa), em um congresso sobre a luta das mulheres latino-americanas. Depois, acompanhamos o metalúrgico Luiz Antônio de Medeiros e esposa em missão de apresentação da FS (Força Sindical) para a Clat (Central Latino-Americana de Trabalhadores), em Caracas. Lá reencontramos Isabel em outro seminário do STC (Solidariedade com os Trabalhadores Cubanos).

Resumindo, Isabel, de cara, na opção de Fidel pelo comunismo, colocou-se na oposição, reivindicando com outros do grupo, o cumprimento da promessa de democracia em Cuba. A democracia não veio e eles foram presos. Ela amargou 12 anos de cárcere nas prisões de Cuba, um sofrimento indizível. Fidel deu seguimento àquilo que chamamos “ditadura totalitária de esquerda” e Isabel só foi solta graças a acordos internacionais. Vive em Miami e é ativa no STC.

Encontramos Isabel outras vezes e a visitamos em Miami, onde ela nos mostrou todos os bairros cubanos e seus principais pontos turísticos, incluindo bons restaurantes. Na última vez, lembramos nitidamente de seu desabafo, “Será que um dia voltarei à minha terra”? Respondi que sim e chutei para mais de 10 anos à frente, “antes de 2000, você pisará no solo democrático de Cuba”. Errei feio! Apesar da Glasnot e Perestroika, da queda do Muro de Berlim e da morte de Fidel, Cuba continua sendo o que sempre foi.

Essa postura de colaborar com o STC não me permitiu visitar Cuba, onde, sempre soube, meu nome estava proibido. Mas, outros brasileiros também passaram por isso. Um deles foi Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), simplesmente porque fizemos um protesto contra a prisão de manifestantes pró-democracia, defronte ao Consulado Cubano de São Paulo. A vida seguiu e, apesar de facilidades pontuais, Isabel nunca voltou a Cuba. Nem nós lá fomos.

Como ainda recebo comunicados do STC, perguntei ao meu amigo Siro Del Castillo se ele sabia sobre Isabel. A grata surpresa: ela está bem, atuante e continua vivendo em Miami. Contudo, pergunto-me, como superar uma vida inteira de luta frustrante contra um regime de exceção? Aqui também passamos por isso, mas por pouco tempo, o suficiente para não querermos de volta qualquer ameaça à democracia.

Como Ricardo Gondim (teólogo) me lembra, “tenho mais passado que futuro”, então conto a história de Isabel Tejera para torná-la pública como exemplo a ser observado por todos aqueles insatisfeitos com o regime que temos. As ditaduras de esquerda ou de direita não são diferentes, são iguais em tiranias. A missão de todos os brasileiros é trabalhar para o aperfeiçoamento das instituições, incluindo nossa frágil democracia.

Laerte Teixeira da Costa, Vice-presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e ex-vereador em Rio Preto

 
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