E agora, Maria?
Mediante qualquer abalo econômico, social ou até climático, somos as mais vulneráveis

Inicio este texto como uma pergunta com tom provocador, inspirada no poema de Carlos Drumond de Andrade ' E agora, José? '.
Amanhecemos com a decisão democrática na nossa sociedade e, diante dos últimos tempos, conseguir manter a democracia é motivo de comemoração. Porém, é uma comemoração mu ito tímida, regada a muitas regras de conduta, quase que um evento corporativo de fim de ano.
Observando as duas ultimas semanas, presenciei um fenômeno um tanto curioso. Vi mulheres polarizando dentro de duas possibilidades, se é que podemos considerar possibilidades, que possuem como pano d e fundo a mesma direção.
Não estou negando as diferenças, tanto é que parte delas me fez escolher, porém, meu grande foco com esse texto é a polarização entre as mulheres.
Sabemos e vivemos nas nossas peles a constante ameaça aos nossos direitos duramente conquistados. Mediante qualquer abalo econômico, social ou até climático, somos as mais vulneráveis, são nossos direitos que viram alvo de mudança e seguimos sem a real liberdade de caminhar nas ruas sem segurança.
Se pensarmos na interseccionalidade, se for uma mulher LGBTQIA +, preta e mãe solo, então! E agora, Maria?
Quando aprenderemos a fazer o pacto do patriarcado, que, a despeito das diferenças e inimizades jamais perde a aliança?
E agora, Maria? Vamos respirar, vamos dialogar ? Vamos nos unir? Vamos , Maria? E você, Marie? Marie não se identifica com gênero feminino, mas, se possui um curso biológico lido como tal , também está com direitos ameaçados.
Quando vamos parar de dar nosso voto de confiança àqueles que não conhecem de fato nossas demandas, realidades ? Quando vamos parar de performar a princesa à espera no príncipe encantado e entender que quem vai ter de matar dragões somos nós por nós?
Espero, Maria, que possamos tomar um com café, um suco, uma breja ou um drinque para brindar novas conquistas, mesmo que sejam a permanência das mesmas. Desejo poder te reconhecer onde estiver, prestigiar teus sonhos e brilhar ao teu lado.
Sabe, Maria, a coisa está complicada, estamos cada vez sem opção e condição.
Não precisamos ser a salvadora o tempo todo. A parece lá em casa pra falar de levezas, pra afago e afeto. Não percamos de vista o afeto e admiração. Não joguemos o jogo da divisão.
E agora, Maria? Vamos partilhar!!!
Juliana Mogrão Moreira, Mais uma Maria, preta, mãe, psicóloga, doula e exausta deste cenário triste