SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 18 DE JANEIRO DE 2022
ARTIGO

Ditaduras e mulheres

A democracia, embora imperfeita, garante aos cidadãos divergir e lutar por um país melhor e inclusivo

Maria Aparecida Cury
Publicado em 15/01/2022 às 01:01Atualizado em 15/01/2022 às 01:21
Maria Aparecida Cury

Maria Aparecida Cury

As ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda, sempre são nocivas para os cidadãos do país, pois as eleições são indiretas, ou quando acontecem falta transparência, o regime é autoritário, o poder é concentrado nas mãos de uma pessoa ou grupo, os direitos mais elementares podem ser cancelados, as manifestações populares são proibidas e reprimidas, existe censura e não existe participação dos cidadãos nas decisões.

Nesse contexto, as ditaduras e as sanções delas decorrentes atingem mais nocivamente as mulheres e todas as demais pessoas em situação de vulnerabilidade.

Na vizinha Venezuela, a grande mídia noticia habitualmente que o sofrimento da população pela ausência das necessidades mais básicas se deve a um processo ditatorial e antidemocrático, mas também não pode ser descartada a possibilidade desse sofrimento estar ligado aos ataques e sanções econômicas impostas por outros países. Seja qual for o motivo, a população iniciou um êxodo para os países vizinhos em busca por melhores condições de vida.

Sob a gravíssima situação imposta, mulheres professoras, pedagogas, comissárias de bordo, advogadas, migram de seu país levando apenas seu desespero e esperança de sobrevivência para si e seus filhos, chegando nos países vizinhos sem nenhuma estrutura, passando a dormir nas ruas, ou quando muito em abrigos superlotados, sujeitas a todo tipo de violência e se sujeitando a todo tipo de trabalho, mesmo com a qualificação profissional trazida.

Presenciei essa situação no Estado de Roraima, onde chegam venezuelanas aos milhares, e de todas, conheço de perto a história de D, uma mulher que é pedagoga e trabalhava em uma escola, tinha casa, carro, moto e morava com a mãe e três filhos.

Com a doença da mãe, que não tinha como se tratar, e convivendo com a fome, pois seu salário só dava para comprar um pacote de arroz e uma cartela de ovos em um mês, vendeu carro e moto e migrou para o Brasil, onde chegou e passou a viver nas ruas, pois os abrigos já estavam lotados, se alimentava de salsicha e ficou sem tomar banho, situação que durou por dias, até que a solidariedade de outro venezuelano e de um brasileiro permitiu que se abrigasse em uma borracharia no período noturno para tomar banho e dormir.

Depois de alguns dias sozinha nas ruas, encontrou outra mulher venezuelana na mesma situação e ambas passaram a se apoiar na tentativa de ter mais segurança, especialmente na hora de dormir.

Sua mãe faleceu na Venezuela, mas D não desistiu de lutar, e com o tempo e a solidariedade de alguns brasileiros não xenofóbicos, sim, porque além de tudo elas enfrentam a xenofobia, ela foi conseguindo trabalhos como ajudante de pedreiro, faxineira, enfim, trabalhos braçais que jamais recusou e continua não recusando, sempre mantendo a esperança de uma vida melhor para ela e os filhos.

Hoje, já trouxe os filhos, conseguiu um local para morar e trabalha todos os dias da semana sem descanso, sempre agradecida aos brasileiros que lhe estendem a mão.

Essa história de vida real demonstra que a democracia, embora imperfeita, garante aos cidadãos divergir e lutar por um país melhor e mais inclusivo.

Maria Aparecida Cury, Juíza de Direito Aposentada, Presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e Integrante do Grupo Mulheres na Política

 
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