SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUINTA-FEIRA, 18 DE AGOSTO DE 2022
ARTIGO

A rebelião das elites

Todos nós conhecemos instituições em que a elite vive encastelada no seu petit monde

João Francisco Neto
Publicado em 27/06/2022 às 22:13Atualizado em 27/06/2022 às 23:17
João Francisco Neto (Reprodução)

João Francisco Neto (Reprodução)

Na esteira do livro “A Rebelião das Massas”, publicado em 1930 por Ortega y Gasset (1883-1955), no conturbado período do entre-guerras (1918-1939), época da consolidação do comunismo soviético e da ascensão dos regimes fascistas, o pensador americano Christopher Lasch (1932-1994) publicou um livro instigante, que, de certa forma, continua atual até nossos dias: “A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia”. Lasch, que nasceu em Omaha, na remota região do estado de Nebraska (EUA), recebeu uma primorosa formação acadêmica - graduou-se em História em Harvard e fez seu doutoramento em Colúmbia -, e logo passou a escrever artigos sobre a atuação das elites americanas.

Embora sua visão crítica tivesse como destinatário primeiro o público norte-americano, quase tudo o que escreveu pode muito bem ser aplicado aos demais povos ocidentais. Para Lasch, as elites vivem num mundo abstrato, em que a informação e o conhecimento são as mais valiosas commodities do mercado, o que faz com que essas pessoas pouco se vinculem às questões nacionais, regionais e, muito menos, comunitárias; vivem como se tivessem se removido da vida em comum.

Essa espécie de ruptura do pacto social é vista por Lasch como uma ameaça para a democracia, na medida em que aqueles que se encontram no topo da hierarquia social agem de forma autocentrada, indiferentes ao passado e ao futuro, e alheios aos deveres sociais de solidariedade. Preocupadas tão-somente com o seu próprio bem-estar e desprovidas de qualquer sensibilidade com os grandes deveres históricos, as elites se identificam mais com os seus congêneres estrangeiros do que com os seus similares nacionais. Por outro lado, vê-se que, com o desaparecimento da esperança alimentada pelos movimentos sociais até a década de 1970, hoje, as classes trabalhadoras estão muito mais interessadas nas redes sociais da internet do que propriamente nos movimentos sociais que antigamente sustentavam o sonho do socialismo, que ruiu juntamente com o Muro de Berlin.

Atualmente, impulsionadas pelo poder da mídia, as classes médias, intelectualmente achatadas, só conseguem ver aspectos socialmente relevantes nas figuras do espetáculo do show-business e celebridades dos esportes, numa progressiva banalização da vida cultural. A força das grandes corporações da mídia acaba por modificar os valores da cena política e cultural, mediante um permanente bombardeio de cenários de espetáculos, insegurança e incertezas, que, da mesma forma que chegam, logo desaparecem, sem continuidade histórica. São as intermináveis notícias de acidentes, catástrofes, crimes bárbaros, crises e conflitos políticos, que se repetem, dia e noite.

Dessa forma, a mídia “constrói” um presente que parece não ter nenhuma relação com o passado e tampouco com o futuro, e ainda aumenta a sensação de um ambiente de incerteza, ceticismo e individualismo. As elites, insatisfeitas com os rumos da cena cultural e política local, distanciam-se e descomprometem-se cada vez mais da sociedade, criando seus próprios espaços de refúgio, que nada têm a ver com a vida comunitária. Afinal, todos nós conhecemos instituições em que a elite vive encastelada no seu petit monde (no seu “mundinho”), totalmente alheia aos problemas do restante da sociedade, ou seja, a maioria do povo.

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP); Monte Aprazível

 
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