Você sabe com quem está falando?
Tive que dar um jeitinho à moda brasileira. Telefonei para uma amiga, jornalista, com boas relações na empresa, e ela intercedeu por mim, de tal forma que acabei atendido sem esperar muito tempo

Já faz um bom tempo que conheço e tenho usado os serviços do Poupatempo de Rio Preto, instalado naquele prédio esquisito, em frente ao Mercado Municipal. Desde a primeira vez, saí de lá impressionado não apenas pela fluidez e resolutividade do atendimento nas diferentes “praças” que abrigam serviços públicos importantes, mas – e principalmente – pela dignidade de tratamento com o qual são distinguidas as pessoas comuns, da mulher humilde ao homem engravatado, que vão ali em busca de soluções rápidas, certas de que não serão postas de lado ou então passadas para a frente dependendo do fato de terem ou não terem amizades influentes.
Já ouvi testemunhos de usuários de que ali tudo funciona, sempre funciona e funciona em ambientes espaçosos e confortáveis. Ninguém fica à mercê dos humores dos funcionários mal encarados nas empoeiradas repartições públicas, mais interessados em exibir seus estreitos limites de poder do que, propriamente, em atender com presteza e cordialidade a quem paga os seus salários.
O Poupatempo, pude constatar, não se parece com seus irmãos mais velhos — os organismos públicos caquéticos e pachorrentos, em que a tortura da espera, da incompetência e da mania de não resolver nada sempre penaliza as pessoas.
A maravilhosa descoberta dessa nova geração do serviço público, em oposição à era dos carimbos, da firma reconhecida e do infalível “o senhor vai ter que voltar outra hora”, me flagrou em um momento de descrença, imaginando exatamente o contrário — que a putrefação do serviço público já estivesse transpondo os próprios limites, contaminando os segmentos privados.
Lembro-me da via crucis à qual fui obrigado a me submeter há uns 15 ou 16 anos, quando uma prestadora de serviços públicos imputou a mim a responsabilidade de me servir de um “gato” para roubar energia do relógio de força de um apartamento alugado. O inquilino responsável pela irregularidade já havia se mudado, de modo que o corte de energia foi feito quando outra pessoa já morava no local. Preocupado em resolver rapidamente o problema, fui orientado a comparecer ao escritório de uma das empresas terceirizadas que prestavam (ou ainda prestam, não sei) serviços à concessionária de energia elétrica.
Nem me lembro do nome dos picaretas, mas o tal escritório — para onde estavam sendo encaminhadas diariamente dezenas de pessoas — ficava nos andares mais altos de um prédio comercial do Centro, onde os cidadãos eram recebidos em uma minúscula sala de espera e chamados a conta-gotas, depois de horas de espera.
Não havia outro jeito de resolver a encrenca. Ou me sujeitava àquela incompetência, ou não conseguiria restabelecer a energia do apartamento e enfrentava a fúria do inquilino.
Tive que dar um jeitinho à moda brasileira. Telefonei para uma amiga, jornalista, com boas relações na empresa, e ela intercedeu por mim, de tal forma que acabei atendido sem esperar muito tempo, passando à frente dos outros, com cara de envergonhado.
Ao deixar o local, depois de ter furado a fila e ante os olhares desconfiados das outras vítimas, ouvi quando um deles murmurou, inconformado:
— Ué?! O atendimento aqui não é por ordem de chegada?
Respondi com uma provocação vingativa:
— É que eu sou amigo do diretor da empresa de luz. Aqui só funciona assim…
Viva a dignidade de iniciativas como o Poupatempo.
JOSÉ LUÍS REY
Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos