Viverá para sempre seu legado e escritos

Aprendi desde cedo que as mulheres eram muito mais poderosas e capazes do que os homens. Pelo exemplo. Além de mulher forte e inteligente, a potência criativa, amorosa, determinada, admirável e prodigiosa de sempre, Dinorath do Valle demonstrava sua potência intelectual em seus multitalentos.
O trabalho constante uniu a mãe-dona-de-casa à professora, orientadora pedagógica, historiadora, jornalista, escritora, cineasta, desenhista, bordadeira.
Dinorath não parava um minuto. Lecionava dia e noite, inaugurou e dirigiu a Casa de Cultura durante 30 anos, promoveu Salões de Arte, do Folclore, do Futebol, concursos literários, fundou a Escolinha de Arte Infantil, o Clube de Cinema, idealizou o Festival de Teatro, criou uma Hemeroteca e museus. Conferencista brilhante, ministrou cursos em outros estados e várias cidades da região, escreveu apostilas e métodos de ensino, foi orientadora pedagógica da APAE durante anos. Visionária, tinha uma capacidade inesgotável de incentivar pessoas e divulgar tudo sobre a vida e a arte. Tudo junto com ler e escrever. À noite, sentava-se diante da mesa de madeira para escrever contos, crônicas e reportagens históricas. Adorava pesquisar palavras na coleção de dicionários que mantinha entre os quase dez mil livros da biblioteca particular – os livros eram sua paixão. Dizia que não queria morrer e deixar os seus livros.
Na mesa da cozinha assisti nascerem os originais dos desenhos à nanquim publicados nas páginas dos livros didáticos; ilustrações bico de pena e até diplomas. Ali ela também elaborava croquis e riscos para bordar monogramas, flores e passarinhos em composições fantásticas. Na cadeira de vime diante do janelão da sala, Dinorath escutava a televisão como rádio (quando o programa permitia ou não era assim tão interessante), os olhos estavam ocupados com as mãos na agulha e linhas coloridas atravessando o tecido. Dinorath presenteou muita gente com bordados cheios de carinho. Eu mesma ganhei centenas de blusas, camisetas, vestidos e toalhinhas...
Seus bordados são lindos, usava técnicas de desenho com as cores das linhas em degradê como se fosse pintura! Não conheço nada igual. Fiz sucesso até com desconhecidos me parando na rua para admirar de perto a peça que eu estava usando. Não houve o que a Dinorath não pudesse fazer. E fez tudo bem-feito. Hoje nós celebramos o centésimo ano do seu nascimento. Lembro com saudade o calor do seu corpo naquele abraço afetuoso nas minhas chegadas e partidas. Agradeço todos os dias o privilégio dessa convivência, a confiança mútua e todo amor compartilhado. Meu orgulho é infinito. Trabalhei duro durante os últimos 20 anos para criar o “Centro de Memória Casa Dinorath do Valle” entregue à cidade no final de 2024, a fim de manter aquela casa navegando exatamente como ela nos ensinou.
Dinorath viverá para sempre em seu legado e seus escritos.
Moema do Valle Kuyumjian
Filha da Dinorath