Virtudes de fachada
Quando a fé se veste de milícia ideológica, a sociedade inteira paga a conta com mais divisão, menos escuta e uma laicidade que, em vez de proteger todos, vira campo de batalha

Nos últimos tempos temos sido bombardeados com postagens em redes sociais de uma quantidade enorme de pessoas que, a despeito dos péssimos valores que professam em suas condutas pessoais, buscam se vender como “santos (as) de timeline”.
Gente que transforma a aba de posts em púlpito, faz reflexões de conteúdos cristãos, cita versículos com a mesma naturalidade de quem compartilha receita de bolo e, na vida real, bloqueia, ironiza ou torce pela queda de quem pensa diferente, age com desonestidade no trato das coisas do dia a dia etc.
É uma fé curiosa que prega amor ao próximo, mas só vale para o próximo que concorda com a legenda ou partido político, que marca a hashtag certa, que não ousa questionar as autoridades em grupos de WhatsApp e que não se rebela diante do que é errado, mesmo que o errado seja praticado pelo político que idolatra ou amigo que lhe concede favores.
Não é à toa que a sociedade brasileira anda com o radar da incoerência bem calibrado. Quando a ética vira trincheira de guerra cultural, a credibilidade vai direto pro ralo. Afinal, é difícil levar a sério um discursos sobre virtudes embalados em thread de ódio, ou uma defesa ferrenha da “família” que ignora semelhantes que passam por dificuldades e sofrem as agruras da vida real.
A virtude de fachada funciona mais ou menos como filtro de Instagram: embeleza a imagem, alisa as rugas da consciência, mas não muda a realidade. A tradição cristã que realmente deveria marcar nossos atos do dia a dia nunca pediu para sermos “influenciadores da verdade” que buscam apenas rasa visibilidade, mas sim sal da terra, conforme nos diz Mateus (5:13) em relação aos valores e princípios positivos que todo ser humano deveria professar.
No Brasil esse sal está perdendo o sabor e virando tempero para brigas de internet e instrumento de manipulação política.
A busca pela virtude que deveria aproximar vira munição de meme; o diálogo vira monólogo com direito a emoji de fogo; e a pergunta bíblica “e o teu próximo?” vira “e o teu adversário?”. A ética cristã, que historicamente deveria ser ponte, acaba virando muro. E muro, por mais bem decorado que seja, não convida ninguém a atravessar.
Essa intolerância só confirma o óbvio: quando a fé se veste de milícia ideológica, a sociedade inteira paga a conta com mais divisão, menos escuta e uma laicidade que, em vez de proteger todos, vira campo de batalha.
Uma reflexão se faz necessária não renunciando à crença cristã, mas de fato retornando aos valores e princípios básicos.
Virtude cristã de verdade não se mede pelo volume do grito, por curtidas em redes sociais e nem pelo número de bloqueios preventivos. Ela se exercita na paciência com quem erra, na curiosidade por quem duvida, na coragem de dizer “não tenho todas as respostas” e no hábito quase extinto de ouvir antes de responder. Ironia das ironias: quem mais se diz defensor da verdade costuma ser o primeiro a fugir do debate. E quem mais invoca a cruz é, às vezes, o último a estender a mão.
No fim das contas, a fé não precisa de exército digital para sobreviver. Ela precisa de coerência, de gente que não confunde convicção com superioridade e que entenda que discordar não é pecado.
Tratar o diferente como inimigo, isso sim, já é um desvio de rota. Nossa sociedade não precisa de novos fariseus de plantão. Precisa de cidadãos que, mesmo pensando diferente, saibam dividir o café, o espaço público e, quem sabe, um pouco de graça. Porque, no reino da virtude autêntica, o primeiro a chegar nunca é o que grita mais alto. É o que escuta, acolhe e, acima de tudo, ama sem exigir cópia da sua própria opinião, tal como fez Jesus.
Marco Feitosa
Advogado e coordenador do Estado de São Paulo do Movimento Livres