Olhar 360

Vice-Rei de quintal alheio

Marco Rubio flerta com um passado sombrio: o período em que Cuba, sob a bota de Fulgêncio Batista, era uma 'colônia de fato' dos Estados Unidos

por Fernando Fukassawa
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Fernando Fukassawa (DIARIO)
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O Secretário de Estado americano, Marco Rubio, parece ter se equivocado de século. Aos 55 anos, o advogado de Miami e herdeiro do exílio cubano não se comporta como um diplomata do século XXI, mas como um entusiasmado herdeiro das caravelas. Filho de imigrantes que deixaram a ilha antes de Fidel Castro sequer sonhar com o poder, transformou o trauma familiar em uma espécie de "vingança com data marcada", obcecado em ver a ditadura ruir antes que as urnas de novembro cobrem seu preço.

Já conhecido como “Falcão”, linha-dura na política externa, ganha mais um apelido de Washington: "Vice-Rei de Cuba". A ironia histórica é primorosa. Na era colonial, a Coroa Espanhola retalhou o continente em quatro grandes vice-reinados para manter a ordem na "plebe" de forma gradual ao longo dos séculos. Cuba, contudo, era uma Capitania Geral — um posto militar rústico, desenhado para espantar piratas e segurar o Caribe no grito. Rubio parece preferir o glamour do título de vice-rei, agindo como o dono das chaves de uma propriedade que nunca foi sua e nem de seus pais.

Se o título soa como delírio aristocrático, a prática beira o absolutismo. Ele conseguiu a proeza de eclipsar o próprio vice-presidente, J.D. Vance, tornando-se onipresente de um gabinete que respira intervenção. Desde que Nicolás Maduro foi "extraído" de Caracas em uma operação cinematográfica e depositado em uma cela em Nova York, Rubio passou a desfilar como o único adulto na sala. É o queridinho do "Estado da União", o ungido de Donald Trump para cuidar das "províncias" ao sul.

O Secretário é hoje o sumo sacerdote da "Doutrina Donroe" — esse estranho mutante entre o egocentrismo de Donald e o imperialismo de James Monroe (“América para os americanos”). A mensagem transmitida é que o Caribe e a América Latina voltaram a ser o "puxadinho" dos Estados Unidos, onde Rubio dita quem entra e quem sai.

Com o chicote na mão, o linha-dura republicano é associado ao que o presidente americano vangloria de retumbantes sucessos, como a expulsão de empresas de Hong Kong do Canal do Panamá e devolução do petróleo venezuelano às mãos da Chevron e da ExxonMobil. Enquanto a guerra no Irã faz água, Rubio oferece a Trump vitórias de manual, fáceis de vender em um palanque na Flórida: "Acho que terei a honra de tomar Cuba", declarou Trump sobre este país "sem dinheiro, sem petróleo, sem nada", que, no entanto, é "uma ilha linda". "Poderei fazer o que quiser com ela. Cuba cairá muito em breve".

Mas a obsessão de Rubio não se limita aos mapas coloniais. Ela flerta com um passado sombrio: o período em que Cuba, sob a bota de Fulgêncio Batista, era uma "colônia de fato" dos Estados Unidos. A ilha funcionava como um autêntico bordel, um playground onde a máfia americana e as elites de Washington ditavam as regras entre cassinos, lavagem de dinheiro e exploração. Quase toda a produção de açúcar e as melhores terras pertenciam a empresas americanas. Cuba não decidia seu destino econômico; era decidido em Washington ou Nova York.

É essa Cuba — a do balcão de negócios e da soberania de fachada — que parece habitar o imaginário do "vice-rei". Assim, quando falam em tomar Cuba e gerir a ilha como um ativo imobiliário, não estão propondo algo novo, mas tentando restaurar esse status de "cassino e quintal" que a Revolução de 1959 rompeu.

Resta saber se o "Pequeno Marco" — como Trump carinhosamente o humilha — se sente realizado no papel de síndico de uma ilha que ele julga estar prestes a afundar. Ele pode até se sentir um vice-rei, mas a história costuma ser cruel com quem tenta governar por procuração um povo que, entre piratas e impérios, aprendeu a sobreviver a vizinhos inconvenientes.

A palavra caribe significa, na origem, coragem, audácia e valentia. Dos moradores... não dos invasores.

Fernando Fukassawa

Advogado, professor de direito e promotor de Justiça aposentado