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ARTIGO

Vacina e risco de morte

As vacinas representam uma das maiores conquistas da medicina moderna

por Milton Artur Ruiz
Publicado em 16/06/2026 às 19:04Atualizado em 16/06/2026 às 20:04
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Antes de tudo, é importante esclarecer que a investigação dos dois óbitos ocorridos após a aplicação da vacina contra a dengue do Instituto Butantan despertou preocupação natural na população e levou à suspensão temporária de sua utilização. É fundamental que os fatos sejam analisados com serenidade e baseados em evidências científicas, evitando conclusões precipitadas.

As vacinas representam uma das maiores conquistas da medicina moderna. Desde a criação dos programas de imunização, elas transformaram a história da saúde pública, reduzindo drasticamente o número de mortes por doenças infecciosas. Entre 1974 e 2024, estima-se que aproximadamente 154 milhões de vidas tenham sido salvas graças à vacinação, sendo 146 milhões delas de crianças menores de cinco anos. Vacinas contra sarampo, hepatite B, HPV e, mais recentemente, contra a COVID-19, tiveram impacto extraordinário na redução de óbitos em todo o mundo.

No entanto, assim como qualquer medicamento, as vacinas não são totalmente isentas de riscos. Eventos graves podem ocorrer, embora sejam extremamente raros. Entre as situações reconhecidas pela literatura científica como possíveis causas de óbitos relacionados à vacinação estão a anafilaxia, uma reação alérgica grave; infecções pela própria cepa vacinal em pessoas gravemente imunocomprometidas após vacinas vivas; intussuscepção após vacina contra rotavírus; síndrome de Guillain-Barré após vacina contra influenza; doença viscerotrópica ou neurológica associada à vacina contra febre amarela; complicações graves da vacina contra varíola; e poliomielite paralítica associada à antiga vacina oral contra pólio.

Até o momento, não havia evidências consistentes de relação causal entre óbitos e as vacinas contra dengue utilizadas no Brasil. A vacina Butantan-DV passou por rigorosos estudos clínicos antes de sua liberação. Em ensaio de fase 3 realizado no Brasil, com mais de 16 mil participantes acompanhados por até cinco anos, a frequência de óbitos foi semelhante entre vacinados e pessoas que receberam placebo, sem que nenhum caso fosse atribuído à vacina. Esses resultados reforçam o compromisso científico e ético na avaliação de segurança antes que qualquer imunizante seja disponibilizado à população.

As perspectivas futuras também são animadoras. Estudos internacionais estimam que, entre 2021 e 2030, cerca de 51,5 milhões de mortes poderão ser evitadas graças à ampliação da cobertura vacinal, o equivalente a mais de cinco milhões de vidas preservadas a cada ano, especialmente em países mais vulneráveis.

Por fim, quem recebe uma vacina deve informar aos profissionais de saúde qualquer reação inesperada após a aplicação e permanecer no local por alguns minutos após a imunização. Essa medida simples permite o reconhecimento e o tratamento imediato de raríssimas reações agudas, aumentando ainda mais a segurança do processo.

Os benefícios da vacinação superam amplamente seus riscos. Vacinar-se é um ato de proteção individual e coletiva, capaz de salvar milhões de vidas. Manter a confiança na ciência, participar dos programas de imunização e relatar adequadamente os eventos adversos são atitudes essenciais para que continuemos a colher os extraordinários resultados que as vacinas proporcionam à humanidade.

Milton Artur Ruiz

Médico, coordenador da Unidade de TMO e Terapia Celular do Hospital Infante Dom Henrique da Associação Portuguesa de Beneficência de Rio Preto.