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ARTIGO

Uma foto no computador e a morte de Dinorath

Rio Preto sempre fez o possível para ignorar sua postura crítica, desafiadora dos cânones

por Maria Ângela Ziroldo
Publicado em 11/07/2026 às 16:53Atualizado em 11/07/2026 às 16:53
Maria Ângela Ziroldo (Divulgação)
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Maria Ângela Ziroldo (Divulgação)
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Dinorath do Valle foi inspiradora. Quando ela morreu, eu fiquei tristíssima. Quem na nossa geração não foi tocado por ela?

Não bastasse o talento para escrever, ela foi uma maravilhosa “desencaminhadora” de jovens.

Na Rio Preto pós-golpe de 64, quando o que havia de pior e de mais conservador se uniu para acabar com qualquer possibilidade de mudança e de crítica, Dinorath criou pequenos respiradouros/frestas que deixavam entrar ar fresco e luz para os jovens, os criativos, os desajustados e os loucos.

Será que Serroni, Vendramini, Hudson, eu mesma e tantos outros teriam se encontrado em suas vocações, sem Dinorath?

Os salões de arte, os grupos de teatro, os concursos de redação...

Ela estava sempre arquitetando, criando coisas para que seus alunos (ou não) pudessem descobrir seus talentos, ou simplesmente experimentar.

E havia nela aquela coragem maravilhosa de assumir a vida, com a maior verdade. Lembro quando ela tomou a decisão de se separar do marido.

A gente estava começando a pressentir as discussões sobre feminismo. Carmen da Silva nos ensinava na revista Cláudia que havia espaço para a mulher além da cozinha, além do papel de esposa e mãe.

A decisão de Dinorath de se separar chocou os homens e muitas mulheres. A coragem de ser e o profundo respeito à verdade impunham respeito e a protegiam do provincianismo.

Dinorath tinha a consciência de seu valor, mas a incomodava o fato de o respeito que conquistara na cidade estar descolado da sua verdade.

Rio Preto sempre fez o possível para ignorar sua postura crítica, desafiadora dos cânones e regras.

No final dos anos 70/começo de 80, ela me contou uma historinha que ilustra bem isso. Na época, tinha um relacionamento com um psiquiatra baiano.

Em uma estadia dele em Rio Preto, foram a uma ótica, onde a atendente, ao ver o jovem ao seu lado (ele era uns 30 anos mais jovem que ela), perguntou:

“É seu filho, dona Dinorath?”.

E Dinorath, sem tergiversar:

“Não, é meu amante.”

Ela me contou essa história e concluiu:

“A garota olhou para mim, rindo, sem acreditar... É disso que tenho medo. Desse jeito, é capaz de me transformarem em nome de escola, quando eu morrer.”

É interessante. Ao escrever sobre Dinorath, descubro por que não gosto de rever Rio Preto.

A cidade ficou sem Dinorath.

Rio Preto, cada vez mais, é apenas uma foto no computador... Mas como dói!

Maria Ângela Ziroldo

Jornalista